quarta-feira, 8 de maio de 2013

Estrada Real-1ºdia


1º dia 7 de maio de 2013
Terça feira
    Cocoricóóó! São cinco e meia da manhã e acordo com o despertador do meu celular. Resolvi começar o post com esta onomatopeia pois coloquei como toque do despertador sons de galos e pássaros cantando, além de macacos e outros animais. Baixei os sons separadamente e depois mixei tudo no editor de áudio do PC (audacity).
    Detesto os sons dos despertadores da maioria dos celulares, são muito irritantes, ainda mais por que não gosto de acordar cedo. Com esse som que editei pelo menos acordo pensando que estou em uma fazenda.
    Instintivamente, tento me levantar para acender a luz, mas logo caio na real e percebo que não estou mais no conforto do meu quartinho na minha querida Ipatinga e sim em uma barraca montada em um bairro próximo ao centro de Belo Horizonte. Abro a mochila e tomo quase meio litro de água em jejum (um antigo hábito meu) e, deitado, espero mais meia hora para me levantar. 
Não consigo acordar cedo e ir logo fazendo as coisas, talvez pela ressaca do pan nosso de cada dia (diazepan).  Por isso dou esse tempo, de preferência ouvindo rádio ou assistindo TV.
    Se existe uma unanimidade, acho que é a de que esses minutos na parte da manhã quando estamos deitados são os que mais rápidos passam. Já são seis horas e lá vou eu desmontando a minha barraca para pegar o ônibus para Ouro Preto e começar essa aventura que não sei se vou conseguir terminar. 
    O ônibus para Ouro Preto passa na BR 040, a mesma em que fiquei perambulando por vários dias durante o meu primeiro surto psicótico, no ano de 2003. No caminho um filme se passou pela minha cabeça, me fazendo recordar com detalhes algumas coisas que fiz naquele ano com 25kg a menos. Fiquei me perguntando como consegui andar tanto pela BR naquelas condições físicas.

o início
Ouro Preto com seus telhados maravilhosos 
    Em Ouro Preto tirei algumas fotos de algumas igrejas e parti logo para o distrito de São Bartolomeu. No começo, foram 2km de subida pela BR até o início da trilha, que já sabia de antemão que era dificílima de se fazer. Tem se a opção de fazer o caminho por estrada de terra, mas "sabe cume né?", parece que gosto das coisas mais difíceis e sou da turma do Só pra contrariar. Se quiser que eu faça alguma coisa, me peça justamente o contrário, pois, como gosto de contrariar tudo, irei fazer o que você deseja. rrsrsrsrs
    As subidas no início da trilha são de intensa dificuldade, numa escala de 1 a 10, classificaria em 7. Quem não estiver com o preparo físico mais ou menos em dia, é melhor não se arriscar.

    Já na trilha, a dificuldade aumenta e muito. Além de ser muito estreita, é repleta de buracos e pedras escorregadias. O solo não é regular, quase não se dar para fazer a pisada rente ao solo. Ora temos que pisar meio de lado, ora na ponta dos pés. A articulação e os músculos próximos aos pés (aqueles que usamos para ficarmos na ponta dos pés) são muito exigidos, e começam a ficar um pouco doloridos. Há muitos espinhos de plantas no meio da trilha, e é quase inevitável não arranhar os braços, sendo perigoso atingir os olhos também.
trilha tensa de ser percorrida....
     Em alguns momentos tenho a sensação de que não estou em uma trilha, de tão estreita que ela é, além da mata fechar o caminho em algumas vezes. Várias vezes piso em algum buraco e chego a torcer os pés. Começo a pensar no pior, com receio de que fiquem inchados, como na minha primeira andança que fiz no Espírito Santo, o chamado Caminho do Padre Anchieta.
muitas dificuldades pela trilha
marco caído que me fez seguir pela ferrovia
    No marco 595, existe um chafariz construído no ano de 1792 e aproveito para encher as minhas garrafinhas de água. O sol está forte, já era quase meio dia. Como a probabilidade de alguém aparecer por ali  era de 0,000000001%, resolvo tomar um banho, só que peladão mesmo. Como a água está muito gelada, meu bilau praticamente desaparece.
chafariz antigo
    Banho tomado, bate uma fome e como um pouco de granola. A vista do chafariz é muito bonita e aproveito para tirar algumas fotos. A trilha agora é uma forte descida, o que aumenta as chances de se machucar, devido aos buracos e pedras escorregadias. Numa parte da descida, piso em um buraco e caio, quase ralando a cara na terra. Os dez quilos da minha mochila me fazem lembrar de Jesus no calvário. Não sei, mas acho que até hoje gosto de me martirizar. Vou seguindo o caminho, com agonia e desespero para que acabe logo essa parte da trilha. Logo aparece uma estrada de chão, para o meu alívio. Vou seguindo os marcos até me deparar com um que estava quebrado e caído no chão. Depois de uma breve análise, conclui que a seta estava indicando para a ferrovia. E foi o que fiz, andando pelos trilhos do trem, já que era praticamente impossível andar pelas britas enormes sem cair.

perdido na ferrovia
    Segui a ferrovia, mesmo estranhando o fato. Na maioria das vezes não tinha como escapar das britas, pois a parte de madeira dos trilhos estavam cobertas por elas. Eu havia perdido as planilhas das primeiras cidades e só tinha os marcos para me guiar pelo caminho. Quem estiver pensando em fazer o caminho a pé, baixe as planilhas no site da FIEMG. As planilhas são como o mapa do tesouro, sem elas fica tudo mais difícil. 
    Depois de quase duas horas de caminhada, cheguei a conclusão de que a ferrovia me levaria para uma cidade qualquer, sem ser São Bartolomeu. Fiquei revoltado, queria processar todo esse pessoal da estrada real, por deixarem aquele marco caído no chão apontando para um caminho errado. Ainda havia o fato de alguns marcos estarem cobertos pela vegetação, o que torna as planilhas essenciais. 
    Não tinha a mínima ideia onde estava. Só havia vegetação por todos os lados. Gritei desesperado para ver se alguém me ouvisse, mas a única coisa que ouvi foi o eco da minha própria voz. 
    Estava desesperado, rezando para que passasse algum trem no local, mas nada. Estava tão louco que, se passasse um, iria ficar no meio dos trilhos, para que o maquinista parasse e me desse uma carona, além de me informar onde eu estava. 
    Resolvi voltar, aos frangalhos. Andar pelas britas havia me cansado muito. Pensei que meu pé não iria aguentar tantas torções, cheguei a cair pela segunda vez, pois as britas são muito grandes. Não havia sinal no celular e se tivesse, iria ligar para o pessoal da estrada real. Só para xingar mesmo. 
    Depois de uma hora e meia de caminhada, avisto uma estrada de terra ao lado da ferrovia e, por sorte, dois caras em cima de um cavalo. Pergunto onde fica São Bartolomeu e, para minha alegria, eles me informam que era só seguir a estrada por cerca de quinze minutos. 
    Já estava pensando em desistir, voltar para BH, mas meus ânimos se reacenderam. Faço o caminho até São Bartolomeu como os maratonistas que não aguentam o trajeto inteiro e chegam no final andando, quase caindo no chão.
eu, chegando a São Bartolomeu
      São Bartolomeu é um pequeno e pacato distrito de Ouro Preto, quase não se avista pessoas andando nas  ruas. Consigo encontrar uma mercearia e faço um generoso lanche, pois não existe lugar que venda comida (arroz, feijão, carne, etc). Converso com os donos do armazém sobre o caminho, e eles me dão algumas dicas, pois o dono também é instrutor da trilha, já que algumas pessoas a fazem com o guia.  Estou cheio de dores pelo corpo, encontro um coreto perto da igreja matriz e lá monto a minha barraca. O frio está muito intenso e tenho que me abrigar do vento congelante que sopra pelo local e que deve aumentar de madrugada.  Tento escrever o meu diário de viagem, mas tenho algumas distensões nos dedos das mãos. Mas consigo escrever alguma coisa, apesar da dificuldade. Tenho que anotar algumas coisas, pois sei que vou esquecer no dia seguinte. Ainda são seis horas da tarde, mas não tenho forças para mais nada e vou dormir, a fim de recuperar as energias para o dia seguinte.

-obs: pessoal, quem puder me ajudar nessa viagem, é só adquirir o livro Mente dividida, em PDF, posso mandar por email, sempre que encontrar uma lan house pelo caminho. Estou dormindo na minha barraca, é claro, mas às vezes, pelo fato do caminho ser muito longo, parar em um hotel para descansar bem. As informações, como número da conta, como proceder, etc, estão no lado direito da página. Obrigado a todos pela força 

8 comentários:

  1. Que viagem legal cara, relato bem humorado e perrengoso. Processar o pessoal da estrada real foi boa rsrsrs.
    Boa Sorte ae.

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    1. Valeu por seguir o blog, o negócio é não esquentar a cabeça e ir seguindo. Como na música do Martinho da Vila, é devagar que a gente chega lá. Mas se tivesse sinal de telefone, eu ia xingar demais esses caras.

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  2. Oi Júlio como vai? Adorei as fotos, o lugar é realmente muito bonito, apesar de ser dificultoso.
    Uma pergunta: Aquele chafariz ainda funciona mesmo? Incrível!
    Vendo a imagem do trilho, me fez pensar em um filme que eu adoro chamado Conta Comigo. O filme conta a história de um grupo de amigos que vão a busca de um garoto desaparecido, afim de obter uma recompensa. No filme os garotos utilizam uma trilho de trem como guia para o caminho.
    Vou entrar em contato contigo por e-mail, para obter o seu livro.
    Boa sorte em sua jornada!
    Grande abraço!

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    1. E ai, beleza? Aqui tá tudo certo, apesar do cansaço do caminho. O chafariz hoje em dia só cai algumas gotas dele, mas se tiver paciência dá para encher as garrafinhas de água. Depois vou dar uma olhada no filme. Assim que você fizer o depósito, lhe mando o livro por email assim que encontrar uma lan house pelo caminho. Obrigado pela visita ao blog.

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  3. Júlio. Você é admirável e corajoso! Parabéns! Amo viagens e essas que você faz são incríveis. Sempre te acompanho e mentalizo boas vibrações para que tudo corra bem nas suas aventuras! Boa sorte!

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    1. Obrigado Elsa pela visita ao blog, pensamentos positivos são sempre bem vindos. Com certeza proteção divina não me faltará. Abraços.

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  4. Parabéns pelo relato, est´ajudando a montar nossa viagem pelo caminho velho!!!!

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    1. Legal, fico feliz por ajudar. Qualquer coisa é só entrar em contato. Vocês irão a pé, de bike ou de carro? Uma dica: é sempre bom planejar a viagem, saber os lugares turísticos, mas devemos também nos surpreender com a viagem, não planejando o roteiro em 100%.
      Obrigado pela visita ao blog.

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