segunda-feira, 11 de março de 2013

Caminho do Padre Anchieta: 1º dia

09/03
viagem de trem BH Vitória, próximo a cidade de Aimorés

    Acordei no albergue por volta das cinco da manhã. Apesar da estação ferroviaria estar há uns 300 metros de distância, como sempre não quero chegar no horário, chego sempre com bastante antecedência.
    O trem parte para Vitória às sete e meia da manhã, mas as seis em ponto já estou no terminal, pronto para embarcar. Estava com saudades de viajar de trem e não achei ruim por ter que escolher essa opção de tranporte, por ser a mais barata.
    Curti bastante a viagem, por causa das belas paisagens. Montanhas, rios e vales enfeitavam a minha janela. Como uma criança, registrei tudo em minha câmera.
    A viagem inteira escutei músicas em meu celular. E, como ele é uma salada musical, ouvi todos os ritmos, desde Martinho da Vila atá música clássica, passando por heavy metal, mpb e outros. Além do Yanni né?
Mas, o ritmo que mais se adequou a viagem foi o country, por combinar com as paisagens.
    O melhor da viagem se deu quando o trem se aproximou da cidade de Aimorés, quando o Rio Doce se alarga e faz uma bela combinação com montanhas e vales. Fiquei encantado como visual, o que me fez seguir a viagem em pé, entre os vagões, para melhor curtir o visual, além de poder colocar a cabeça para fora do vagão e sentir o vento batendo em minha cara, como um cachorro que sai para passear no automóvel do seu dono.

    A chegada não foi das melhores. Na estação ferroviária perguntei onde fica a rodoviária para um motorista de táxi, que mandou seguir adiante. De repente, fico de frente para um viaduto, mas só para veiculos. Mas como não queria voltar, resolvi cruzar o viaduto para chegar a Vitória. Só agora que fiquei sabedo que a capital capixaba é uma ilha! Eram mais ou menos nove horas da noite, e o movimento era intenso, principalmente de ônibus e caminhões, que passavam bem rente a mim, me fazendo balançar um pouco, por causa do vento, já que estava andando em sentido contrário. Isso me fez lembrar a época em que estava surtado. Andava de madrugada pelas BR's de Minas e sinceramente não sei como não fui atropelado por algum ônibus, que quase me derrubavam ao passarem por mim, de tão magro que estava.
    Fiquei com muito medo, mas também era uma adrenalina gostosa, confesso. Um cara de carro gritou algo para mim, mas não dei importância. Apesar de ter um pouco de medo de altura, achei o desafio emocionante. Para quem estava há quase dez anos trancado, isso foi uma brincadeira, perigosa, mas foi. O viaduto não era muito largo e, quado se aproximava um ônibus ou caminhão, eu tinha que parar e me segurar na proteção lateral da ponte, para não balançar muito. Não olhei nenhuma vez para baixo, principalmente quando estava bem acima do mar. Sabia que, se fizesse isso, poderia ficar tonto e me sentir mal. No final me senti recompensado, como se tivesse ganho um jogo.
    Já na rodoviária, resolvo comer um pedaço de broa e uma vitamina. Quase me engasgo ao comer o primeiro pedaço, de tão seco e duro que o bolo estava. Tive que deixar a vitamina para depois, para pegar uma água e  desentalar o pedaço da broa que ficou na minha garganta. Acabei jogando-a fora, pois não estava própria para consumo. E disse para o dono da lanchonete:
    - Você tem que pegar umas receitas de broas de Minas Gerais, essa sua está muito ruim!
    - Que isso, fiz esta broa hoje! respondeu o dono.
    -"Nuss", imagina ela daqui a dois dias! retruquei.
    - Ah! Então experimente o meu pão de queijo, que é o melhor que tem! sugeriu ele.
    - O que! Pão de queijo? Você vem falar de pão de queijo com um mineiro? respondi
    A discussão sobre quem tinha a melhor culinária durou cerca de meia hora, mas foi em tom amistoso, no final, recomendei, com educação, para que não vendesse um produto assim tão sem qualidade, impróprio para o consumo, e cara também, o pedaço custou três reais.
    Passei a madrugada na rodoviária mesmo, já que o orçamento para a viagem não permite dormir em hoteis. Não consegui dormir e nem relaxar, por causa da preocupação com minha mochila.


   -Obs: Gostaria de dizer que não sou muito adepto do termo "o esquizofrênico". Isso soa como um rótulo, como que afirmando que todos os portadores são iguais uns aos outros. Não é bem assim, cada portador tem a sua individualidade. Eu tenho a minha, e o que eu posto no blog não é a verdade absoluta dos fatos, a minha intenção não é essa. Tenho meus erros e defeitos, e o que eu sinto que pode ser bom para mim não quer dizer que necessariamente irá ser bom para todos os portadores. Gostaria de agradecer o carinho e o apoio que tenho recebido desde o momento em que sai de Ipatinga. Está sendo um pouco difícil mas tenho tido momentos felizes e principalmente a liberdade, o que é uma necessidade para mim. Irei atualizar o blog sempre que possivel, pois ele agora no momento está mais funcionando como um diário, por causa das minhas viagens.

4 comentários:

  1. E aí amigo, continua sua peregrinação mesmo, hein? Corajoso você. Eu mal saio de casa. Na maior parte das vezes durmo agarrado a minha esposa como uma criança com medo. O tratamento vai indo bem. O surto já passou. A depressão é que é resiliente, difícil de combater, resistente. Mas sempre é assim. Uma hora chega o equilíbrio. Até o próximo surto chegar ... ou quem sabe não. A vontade de chorar o tempo todo, por qualquer coisa incomoda um pouco. Também tá chegando o dia que meu pai foi para o mundo espiritual (18/03). Ele que cuidava de mim. A saudade é gigantesca. Como você faz para lidar com o sono que a medicação provoca ? Tento ficar ativo o maior tempo possível, mas, se bobear, durmo. Se resolver dar uma "cochiladinha" então, lá se vão várias horas do dia. Meu dia fica "curto". Mas chega de falar de mim. Leio seus posts diariamente e desejo a você todo o sucesso do mundo. Fique bem. Grande abraço.

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    1. Olá Hulk, realmente agora estou andando pra valer mesmo. É um pouco perigoso, mas eu gosto de sair andando por ai. Estou curtindo muitas praias aqui no Espirito Santo, algumas desertas, está dando para relaxar bastante, depois irei gravar um video com todas as fotos e videos que estou gravando aqui. Relamente os sintomas negativos são tão ruins como os negativos, não surtamos, mas o desânimo é incapacitante. Em relação aos medicamentos, atualmente parei com os fortes, justamente por causa do sono que eles causam. Eu procuro me conhecer o bastante, para saber quando estou prestes a surtar, e ai, tomo os meus cuidados. Como não fico agressivo nos surtos, dá para ir levando, administrando as paranoias.

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  2. oi sou Leyla. puxa seu blog, ou melhor sua historia é envolvente,estou elasticamente feliz por sua vida, já estudei sobre esquizofrenia na faculdade, mas só depois que tive depressão por faltaa de iodo, que só foi descoberto após 10 anos de muita luta por uma nutrologa, que vim a entender de fato o que são os transtornos mentais, meu deus, como fico feliz por vc, é quase um milagre sua historia. eu estou tentando criar um blog para mostrar minha cidade aos meus olhos e ví seu comentario (na sugestão do melhor blog )e não resistí em trocar algumas palavras.pretendo contactar mais com vc, eu sou psicologa, mas não estou atuando na área clinica. Para mim foi uma ironia do destino alguém como eu tão alegre tão dinamica e ser uma estudante tão amante da psicologia cair numa armadilha como essa da depressão. Hoje entendo que tudo que se põe nos livros fogem do real, a depressão e bem mais terrivel do que se estuda e para piorar o contexto, algumas pessoas usam como jargão estar deprimida.Tenho sofrido muito, mas como vc, não me entrego e tenho lutado comigo mesma. atualmente corro em martatonas, de pequenos percursos ehehe, ando muito de bike, skate e ando muiiitooo, me faz bem.quando estudava tinha um carinho imenso pelo mundo dos transtornos mentais, pesava em ser uma heroina para auxiliar as pessoas que sofrem desse mal, porém fui pega de surpresa, nunca pensei que passaria por isso, mas entendo que deus me permita viver isso para estar 100% a apar de como é e de como colaborar com os que sofrem. uma especie de gota no oceano sabe? atualmente sou mais leyla mesmo, não tenho condiçoes de ser mais algo como psicologa de alguém.achei lindo como vc se expõe, hj foi um dia maravilhoso por ter lido seu blog, pretendo ver mais de sua vida, obhrigada!!!!

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    1. Olá, obrigado pelas palavras e o seu depoimento é uma boa amostra de que a depressão e outros transtornos mentais podem acometer qualquer pessoa. Muitos idealizam os psicólogos(as) imaginando que são pessoas perfeitas, que não se irritam e que são compreensíveis, etc. A depressão pode vir a qualquer momento, até o padre Marcelo Rossi passou por isso. Eu também tinha muita energia e era muito brincalhão, mas os sintomas negativos da esquizofrenia, que são bem parecidos com os da de depressão, me atrapalham e muito a ter uma vida normal. Tento voltar aos exercícios físicos, que garanto que é um dos melhores remédios contra esse desânimo. Obrigado pela visita ao blog e continue na luta, você me parece ser uma pessoa do bem. Abraços

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