quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A mania de perseguição que me persegue 3

    Nove horas da manhã. Ligo o computador e, ao abrir a caixa de emails, me deparo com uma boa notícia:  o primeiro pedido do meu livro, "Mente Dividida Memórias de um esquizofrênico". Feliz, tomo um banho para tirar a ressaca do diazepan e vou para a agência bancária sacar o dinheiro, para imprimir o livro e enviá-lo para a pessoa que fez o pedido.
   Mas, após inserir o cartão e digitar a senha, a seguinte mensagem aparece na tela: "Saldo insuficiente". O saldo insuficiente foi o suficiente para me deixar agitado e logo mil pensamentos invadem minha mente, imaginando que um hacker teria  roubado os dados da minha conta, apesar dos inúmeros cuidados que tomo ao navegar na internet.
  Falar que entrei em pânico não seria exagero, e, depois de vários anos, fui obrigado a tomar um comprimido de diazepan durante o dia para serenar os meus pensamentos. Já estava imaginando as pessoas que fizeram os pedidos me xingando e reclamando por não terem recebido o livro, pois o suposto hacker estaria subtraindo o dinheiro da minha conta. 
    Cheguei a pensar que teria que abandonar a ideia de vender o livro e teria que devolver o dinheiro para as pessoas que haviam feito os pedidos. Fiquei refletindo  qual seria a solução para a minha vida, se teria que voltar a tomar os velhos medicamentos dopantes que me deixam mais parecido com um robô. Pensei em vender o pc e abandonar o mundo virtual, pois a ideia que estou sendo monitorado enquanto navego na internet ainda não saiu completamente da minha cabeça. Sonho em um dia em ganhar na loteria, mas não para ostentar luxo e sair por ai andando com carrões, e sim para não depender tanto das pessoas, que, para mim, não são totalmente confiáveis. 
    São quase dez horas e as funcionárias do banco começam a aparecer. Fico na fila para tentar falar com uma delas para saber o motivo do dinheiro não ter aparecido em minha conta. Depois de meia hora a atendente me dá uma senha para ser atendido. Já dentro do banco, começo a me sentir um pouco desconfortável. Agências bancárias são lugares em que não me sinto bem, creio que a desconfiança das pessoas em relação ao dinheiro me faz mal. Sem contar que tenho a impressão que os seguranças estão sempre me encarando e me achando um provável assaltante de bancos. Como bom esquizofrênico que sou (se é que existe bom esquizofrênico), tenho a sensação de que estou sendo vigiado por câmeras o tempo todo. Quer dizer, a realidade é que no mundo atual estamos sendo monitorados por câmeras em quase todos os lugares públicos, mas a sensação que tenho é que elas são em número muito maior, por causa das minhas paranoias. 
    Penso em tomar um outro diazepan, mas desisto da ideia, pois não quero ficar com sono durante o todo o dia. Olho para o vigia e a sensação que tenho é que ele está pensando que estou agitado por estar planejando algum roubo e que tenho algo em minha pasta. Procuro respirar fundo para dar uma oxigenada em meu cérebro e, como não estava me sentindo bem, peço então para ser atendido naquele momento, pois não iria aguentar esperar muito tempo. Os funcionários do banco foram compreensivos e fui atendido prontamente. 
    A funcionária do caixa, ao ver o comprovante do depósito, me informou que o dinheiro demora um dia para cair na conta, pois quem fez o depósito tinha conta em outro banco. Fico aliviado e a ideia que um hacker teria invadido o meu pc vai logo se dissipando em meus pensamentos. 
    Volto pra casa mais tranquilo, mas um pouco triste por ainda viver essas situações de stress devido as minhas paranoias. É uma decisão que tomei, a de não tomar os antipsicóticos mais fortes, ou dopantes, que deixam a minha mente tranquila, mas que por outro lado me deixam completamente desanimado, sem vontade de fazer nada. Provavelmente, tomando os medicamentos indicados pela psiquiatra, não teria ânimo suficiente para postar os vídeos no youtube e nem escrever o blog e muito menos o livro. 
    Não estou aqui querendo afirma que os antipsicóticos são todos dopantes e que não passam de uma lobotomia química. Não é isso. Conheço amigos portadores de esquizofrenia que estão indo bem com os medicamentos e estão levando uma vida bem próxima do normal. É que cada pessoa reage de uma maneira diferente aos remédios e eu, infelizmente, não  me dei bem com nenhum deles. A psiquiatra do sus já tentou todos os medicamentos possíveis e não deram resultado. Aliás, até deram, mas como disse, fico com a sensação de que estou com dengue, tamanho é o desânimo. Não tenho condições de pagar um psiquiatra particular e comprar os medicamentos de última geração, que chegam a custar seiscentos reais ou mais uma caixa. 
    Como não sou agressivo e nunca tive alucinações em que as vozes dão ordens de comando para fazer mal as pessoas, creio que posso ir seguindo por esse caminho, em que é preciso ter um certo autoconhecimento e me policiar constantemente. 
    Muitas pessoas, ao verem os meus vídeos no youtube, pensam e chegam a comentar que estou super bem, que superei totalmente os meus problemas, mas não é bem assim. A esquizofrenia é uma guerra em que todo dia é uma batalha a ser vencida, pois ainda não existe cura para essa patologia. Claro que hoje em dia estou bem melhor do que nos primeiros surtos, aprendi a lidar melhor com esse transtorno, pois, como disse antes, tenho que me policiar frequentemente para saber se os meus pensamentos são frutos das minhas paranoias ou se é algo aceitável para uma pessoa considerada normal para os padrões da sociedade moderna. 
   Nem todos os dias são assim, estressantes. Passo por períodos de calmaria e até chego a esquecer que tenho esquizofrenia. Tenho esperança que esses dias se tornem cada vez mais frequentes até conseguir eliminar de vez todas essas paranoias, e assim mudar o título do blog para memórias de um ex esquizofrênico. 


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