terça-feira, 29 de abril de 2014

E agora Júlio?

 
 Último dia no abrigo. De manhã tomo o tradicional café com leite e pão com manteiga, que parece que não é dormido, e sim hibernado, mas dá pare descer. Na saída entrego o crachá, a chave do maleiro e a toalha. O porteiro me deseja boa sorte e na rua fico sem saber qual destino tomar.
    Fiz poucas amizades neste lugar, por isso foi fácil o processo de despedida. Claro que irei sentir saudades das acomodações do abrigo, que sem sobras de dúvida é o melhor do Brasil, classificado com quatro estrelas pelo viajante maluquinho shasuahsushauhsas
    Tirando o vizinho do beliche, não conversava com quase ninguém no arsenal. A verdade é que sou anti social mesmo, reconheço, e não me encaixo em tribo nenhuma, a não ser os da tribo dos sem tribo que se sentem diferentes de todo mundo.
    O arsenal, por ser tão grande, a distância entre as pessoas se torna maior. Lá tem a tribo da galera que joga o futebol na quadra do abrigo, a dos mais idosos, a da galera que só quer saber da erva danada, a dos nordestinos e a dos haitianos, dentre outras.
    Por falar em haitianos, a rejeição contra eles está aumentando a cada dia no abrigo. Essa questão venho comentando há algum tempo aqui no blog, mas de uns tempos para cá virou manchete nacional,   depois que centenas de haitianos saíram do estado do Acre e vieram para a capital paulista.

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/04/secretario-critica-acre-por-despejar-haitianos-em-sp-sem-aviso-previo.html
    Certa vez o pau quase quebrou onde a galera costuma recarregar os seus celulares no abrigo. O clima já é um pouco tenso, já que todo mundo fica com um certo receio de ter o seu aparelho roubado,  e então não podemos desgrudar os olhos do celular até a carga ficar completa. A maioria carrega apenas a bateria com o carregador universal, pois muitos aparelhos são produtos de furto, comprados na "feira do rolo", na praça da Sé e no Glicério. Certa vez um haitiano encostou a mão no celular de um brasileiro e esse pequeno gesto foi quase o estopim para uma guerra entre brasileiros e haitianos.
    A coisa ficou séria, haitianos e brasileiros discutindo e quase saindo nas vias de fato, já que nenhum funcionário do abrigo apareceu por lá, mas com o tempo os ânimos se acalmaram.
    Mas será que o motivo foi apenas o toque no celular? Acho que não, quer dizer, tenho certeza que não. Para os albergados brasileiros, cada haitiano representa uma ameaça, uma chance a menos de se conseguir uma vaga em um abrigo. O frio está chegando, e com a copa do mundo por ai, a coisa vai ficar tensa nas ruas das sedes, pois muitos dizem que as prefeituras querem dar uma "limpeza" para quando os turistas chegarem e pensarem que o Brasil é um país sem pobreza. Os brasileiros albergados também reclamam que os haitianos trabalham por menos dinheiro e que recebem uma ajuda do governo, algo em torno de um salário mínimo. Acho essa segunda questão improvável, é só uma conversa que vai passando de albergado para albergado mesmo e com o tempo acaba virando uma meia verdade.
    Outro dia na quadra do arsenal estavam jogando um time só de haitianos contra os brasileiros. Estava longe da quadra, mas os gritos me chamaram a atenção:
    - Aqui é Brasil %$@&.! bradava um cara mais exaltado.
    Os haitianos jogavam duro, mas não eram desleais, como os brasileiros, que não conseguiam conter esse sentimento de revolta contra os estrangeiros. Todo mundo sabe que os haitianos adoram o futebol brasileiro, que saem nas ruas comemorando quando a seleção canarinho ganha uma copa. Eles jogam o futebol de salão como se estivessem jogando em um campo de futebol gramado, talvez por se espelharem nos jogos vistos pela TV em seu país. Os brasileiros já tem mais malícia na quadra e jogam no passe curto, que é o mais usado no futsal. Mas o jogo parecia mais uma decisão de copa libertadores, de tão catimbado e disputado que estava. A qualquer momento poderia rolar uma briga generalizada. O que salvou foi o segundo gol dos brasileiros, já que cada partida termina com o segundo gol de qualquer time, para que quem esteja do lado de fora também jogue.

E agora Júlio?
    Voltando à minha situação, não sei muito o que fazer na parte da manhã. Conseguir vaga fixa em outro abrigo está muito difícil, pelo que pude apurar, talvez por causa do frio, que já chegou em São Paulo. Dormir na rua só em último caso. Tenho receio de montar a minha barraca em terras paulistas. Os moradores de rua geralmente montam suas barracas e lonas próximas umas das outras, e os que não tem procuram dormir em grupo, com receio de que possam ser agredidos ou roubados durante a noite. Hoje morador de rua tem celular, tablet, caixas de som e outras coisas mais. E se por acaso um morador de rua for a uma delegacia se queixar de que foi roubado, provavelmente nem será atendido.
    Não sou de me enturmar facilmente, e não é só por causa da esquizofrenia. Às vezes é melhor andar sozinho mesmo, pois, se estamos enturmado com uma galera que gosta de brigar, por exemplo, a coisa pode sobrar para o nosso lado. E tem aqueles moradores de rua que cometem pequenos roubos, e, se por acaso estamos perto do cara nessas horas, podemos fazer uma visitinha na delegacia. Como não está escrito na testa de cada um quem é honesto ou não, prefiro andar sozinho mesmo. Não se sabe se o cara está querendo fazer amizade com a gente para, num momento de distração, nos roubar. Mas não quero dizer que todo morador de rua tem esse hábito, muitos estão realmente a procura de um trabalho digno para sair das ruas e alugar uma casa ou um quarto.
    Então, como gosto de ficar sozinho, não vou cometer o erro de montar uma barraca nas ruas de São Paulo. Já percebi que alguns caras ficam reparando na marca de minha mochila, perguntando quanto custa, talvez para se ter uma ideia de quanto poderão vende-la. Na hora de carregar o celular, me perguntam se o mesmo é original, o preço, etc. Também não escondo de ninguém que sou aposentado. Então sei que sou uma potencial vítima do pessoal de rua. Se eu fosse um cara mais comunicativo, com facilidade de fazer amizades, a situação poderia ser mais tranquila. Mas sou um cara de ficar mais na minha mesmo, só brinco com pessoas que realmente conheço, e isso talvez possa gerar uma certa antipatia em relação a minha pessoa.
    Estou com uma lista de abrigos da cidade na mão. Encontrei na internet. São cerca de uns trinta, mas deve ter mais, já que a lista é um pouco antiga e a copa do mundo está chegando. Conversando com outros abrigados e moradores de rua, cataloguei um por um, com estrelas, com base no Arsenal da Esperança, que, para mim, merece quatro estrelas.
   Vou para a tenda Bresser por volta das quatro da tarde. Fiquei um tempo no arsenal para confirmar se o meu nome já estava excluído, pois sem isso não poderia entrar em um outro abrigo. Ontem quase consegui uma vaga, mas, como era feriado, o meu nome ainda constava na lista do arsenal e tive que dormir por lá mesmo.
    Não almocei. Essa situação de indefinição me tira a fome. Vou para a tenda Bresser/Mooca. É um local de convivência para moradores de rua.e fica embaixo de um movimentado viaduto. Tem televisão, lugar para jogar damas e xadrez, tomar banho, etc.A assistente social me diz que o melhor a se fazer é ir para uma praça e tentar uma vaga de pernoite em um abrigo qualquer da cidade. E esse é o meu temor, não saber com certeza para onde serei levado, pois alguns abrigos são meio complicados. De tarde, várias kombis rondam a cidade à procura de moradores de rua. Então, por volta das quatro e meia vou para a praça do Largo da Concórdia, no Brás. Lá tem um posto policial e, se não conseguir uma vaga, poderei montar a barraca na praça. O policial que estava de plantão permitiu que eu montasse a minha humilde residência naquele lugar. Assim poderia dormir mais tranquilamente.
    Até hoje não descobri o motivo do povo de rua falar tão mal assim da polícia militar de São Paulo. Nem cheguei a ser abordado durante a viagem Passos dos Jesuítas, no litoral do estado. O único que tive contato apenas conversou amigavelmente comigo, até me ofereceu um lanche e me deu dicas do caminho, ao me dizer que o litoral de Praia Grande estava lotado de "noiados".
    Em Belo Horizonte dificilmente um policial deixaria montar uma barraca no meio de uma praça. Quando estava dormindo em minha barraca na capital mineira, cheguei a ser abordado umas três vezes, sendo que em uma delas o policial foi bastante autoritário e sem educação comigo. Ele chegou por volta das dez da noite e começou a pedir para que saísse, balançando a barraca de um lado para outro, e, claro que levei um susto enorme, já que estava quase pegando no sono. Tive que elevar a voz para ele me deixar em paz, pois estava dizendo que eu teria que voltar para Ipatinga, a última cidade em que estava morando em um lugar fixo. Disse para ele que sou belo horizontino  e que tinha o direito de morar no lugar onde havia nascido. Ai sim o guarda baixou a guarda e foi- se embora. Às vezes temos que elevar a voz, pois alguns policiais pensam que não somos gente. As outras duas abordagens foram tranquilas. Como existem poucos barraqueiros em Belo Horizonte, a polícia da cidade talvez me enxergue como um manifestante, que eu esteja reivindicando algo.
em São Paulo é comum barracas montadas nas ruas
    Já em São Paulo a coisa é bem diferente. Tem barraca em todo canto e em quase todo viaduto, talvez por causa do costumeiro frio que se faz na capital paulista.
    São cinco e meia da tarde.e nada de kombi aparecer. Nessas horas o tempo passa muito devagar. Muitas incertezas invadem a minha cabeça. Será que eles irão realmente passar por aqui? E se dormir na praça, vai ser tranquilo? Lamentei ter deixado o saco de dormir em Belo Horizonte, pois não havia previsto ficar tanto tempo em São Paulo, e a noite parece que vai ser meio congelante...

-obs: me desculpem pelos erros de português e talvez por repetir algumas palavras, mas, na lan house não dá para revisar o texto como desejaria.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O albergue: lado B

   
     No último dia 15 fui chamado para conversar com a assistente social do abrigo. O motivo era apenas para me lembrar que o meu prazo estava se acabando. Como sou aposentado, ganhei apenas três meses de permanência, enquanto a maioria ganha seis meses, alguns ficando até mais tempo. 
    Quando cheguei ao abrigo em janeiro achei justa a decisão, afinal tenho a minha renda, apesar de não ser grandes coisas. Mas quem mandou me endividar? Esses três meses dariam para economizar uma boa grana, pagar o meu empréstimo com o INSS e até comprar uma TV. Também não acho justo ocupar uma vaga de quem está em uma situação mais delicada do que a minha. 
    Mas com o tempo vi que as coisas não funcionavam exatamente dessa maneira dentro do abrigo. Encontrei um cara de BH que é aposentado e que estava na casa. 
     - É só dizer na entrevista que você não é aposentado cara. - ele me disse.
    Não gosto de mentir, ficar inventando histórias. A assistente social faz inúmeras perguntas sobre nossas vidas na primeira entrevista, então a pessoa tem que ter uma história preparada para ser contada. Não sou santo, às vezes falo minhas mentiras, e às vezes oculto verdades que nem sempre precisam ser ditas. Não me sinto na obrigação de sair por ai contando todas as minhas falhas, afinal não estamos em um confessionário né?
    Voltando ao abrigo, além do cara de BH, me parece e se fala que tem muita gente aposentada por lá. Tem um cara que sai de lá todo dia de manhã, com capacete de moto na mão, provavelmente para trabalhar.  Também se fala que muita gente trabalha e passa um tempo no abrigo para juntar uma grana. E uma grande parte, por diversos motivos, só querem ficar lá apenas para passar o tempo, sem um objetivo definido e traçado. Vivem pulando de albergue em albergue, e nem pensam em fazer um curso ou procurar um trabalho. Afinal, os albergues estão ai para isso né? Eu confesso que me acomodei ao conhecer os albergues, já poderia estar com as minhas dívidas quitadas e alugar um quarto só para mim. Eu gasto o meu dinheiro com yogurte. chocolate, mamão pêra e maçã. Já outros preferem gastar com maconha, crack e cachaça. Esse post não é uma denúncia, não quero e nem gosto de saber da vida alheia, só queria ter o mesmo direito e o mesmo prazo que a maioria dos caras têm neste albergue. Se eles ganham seis meses ou mais, por que eu não posso ficar também esse tempo, já que não cometi nenhuma indisciplina? Algumas coisas neste país parecem querer nos convencer de que quem se dá bem é o espertinho, o malandro e quem fala a verdade e é honesto acaba sendo um otário. E é o que estou me sentindo no momento. Se tivesse ocultado a informação na entrevista provavelmente poderia continuar por mais três meses no arsenal. Ou será que não tive um prazo maior por ter esquizofrenia? Pelo que me lembro, não tive atrito com ninguém, entrava e saia calado daquele lugar. Mas continuarei a ser eu mesmo, sem máscaras e sem querer agradar a todo mundo. Se houvesse um detector de mentiras nas entrevistas do abrigo, provavelmente quase a metade dos que estão lá não entrariam. E um abrigo vazio não atrai ajudas e verbas, principalmente da prefeitura. Parece que o abrigo recebe essa ajuda pelo número de vagas, por isso não são tão exigentes assim na hora das entrevistas. Acho que fazem vistas grossa para um monte de coisas que acontecem lá dentro. Seria uma indústria da miséria? Se não houvesse pobreza, não existiriam albergues...
     Achava a minha profissão de operador de som um pouco sem graça e sem importância. Mas, analisando bem, é uma profissão importante, pois precisamos de lazer, arte, cultura e diversão. E, como operador de som, de uma forma indireta ajudava as pessoas a terem acesso a esses itens essenciais para uma vida digna.  E um músico, por exemplo, por melhor que seja, não seria nada se não houvesse um bom profissional  nas carrapetas da mesa de som. . 
    Então comecei a achar o trabalho dessas assistentes sociais de albergues um pouco deprimente. Afinal, enquanto existir a miséria e a pobreza, terão seus empregos garantidos. É algo parecido com a psiquiatria, enquanto houver a loucura, o lucro estará garantido para os profissionais da área. Claro que não estou dizendo que todos os psiquiatras não querem ver os seus pacientes curados, tudo tem sua exceção. Talvez por isso a cura da esquizofrenia não passa apenas de especulações e pesquisas que nem se ouve falar depois de um certo tempo. 
    Mas, como disse no post anterior, o abrigo é um arsenal da esperança para muita gente que quer realmente um trabalho ou está passando por uma situação difícil. Não é por que sai de lá que vou ficar falando mal da instituição. O que disse no post anterior não retiro, merece sim os aplausos o trabalho desse pessoal. Só acho que deveriam ser mais seletivos, pois tem muito cara lá apenas para curtir a vida, fumando o seu baseado e jogando futebol. Andam de uma lado para outro com suas caixas de som penduradas no pescoço, e pensam que todos somos obrigados a ter o mesmo gosto musical do que o deles. Às vezes, em um mesmo ambiente, duas caixas estão ligadas ao mesmo tempo com músicas diferentes. Não me lembro de ouvir  a palavra trabalho sair de suas bocas. Esse post não é uma denúncia, só queria ter o mesmo prazo que esses caras ganham, que é de seis meses. Eu só queria um tempo para ficar livre das minhas dívidas. Cheguei a me oferecer para trabalhar como voluntário todos os dias, para permanecer dentro do abrigo e não sair por ai gastando dinheiro. Mas a assistente social me negou esse pedido. Essas e outras coisas às vezes me fazem pensar que só os malandros é que se dão bem na vida. 
    Sinto que  só conseguirei juntar grana se me internar em uma clínica de recuperação de drogados, apesar de não ter problemas com o álcool e drogas. 
    Mas não vou ficar lamentando o tempo todo. Mas é preciso desabafar e mostrar a nossa indignação, é ruim guardar essas coisas dentro da gente. O jeito é partir para outra. São Paulo tem muitos albergues e, se não oferecerem vaga por eu ser aposentado, posso montar a minha barraca em qualquer lugar, desde que não atrapalhe a passagem dos pedestres. São Paulo, ao contrário de Belo Horizonte, tem inúmeras barracas espalhadas pela cidade. Não cheguei a ser abordado durante a minha viagem pelo Caminho dos Jesuítas. Já em Minas Gerais sou abordado várias vezes durante uma viagem. Sinal de que a polícia está fazendo o seu trabalho. 
    Posso também continuar as minhas andanças também. O próximo roteiro será o Caminho de Diamantina da estrada real, em Minas Gerais. Que saudades das montanhas, das cachoeiras e do povo simples do interior do estado mais acolhedor e hospitaleiro do Brasil!
cachoeira do Tabuleiro, situada no município de Conceição do Mato Dentro-MG, que faz parte do caminho de Diamantina da estrada real

    A verdade é que, analisando tudo o que já me aconteceu, tenho mais do que agradecer do que reclamar. Essa reportagem sobre esse garoto com problemas nos pés me fez sentir vergonha, e me deu forças para continuar. Claro que também não devemos nos contentar com a desgraça alheia, dizendo:
    - Sou feliz, por que tem gente pior do que eu...




     Mas é óbvio que devemos saber distinguir o sofrimento físico do sofrimento mental. Ambos são terríveis, a minha intenção aqui não é dizer qual é o pior. O sofrimento físico é visível e geralmente provoca a comoção das pessoas que se prontificam a ajudar. Já no sofrimento mental as coisas são bem diferentes. O portador é incompreendido. Geralmente dizem que é frescura, preguiça, etc. Na adolescência se torna mais grave quando os pais não entendem a situação de seus filhos, e dizem que isso é coisa de "aborrecentes". Já na infância costumam pensar que seus filhos apenas possuem uma imaginação fértil, etc.
     Se o meu blog tivesse um maior alcance, eu diria aos pais para terem um melhor diálogo com os seus filhos. Já adicionei duas garotas de uns 13 anos que queriam apenas conversar com alguém que entendia do assunto esquizofrenia, já que seus pais não tinham a mínima paciência para um diálogo. 
    Como deu para perceber, me desviei um pouco do foco do post, que era sobre o arsenal da esperança.  Mas sei lá o que me acontece, vou escrevendo e parece que baixa um espírito em mim e saio "psicografando" tudo o que me vem pela mente. Sempre escrevo no caderno, no computador não consigo me concentrar em nada e não consigo escrever uma frase sequer. Preciso do contato com a caneta, já até me disseram que isto se chama cinestesia, não sei bem ao certo o que vem a ser isso. 
     Mas sinto o que acontece é que tenho que ter a atenção toda focada para o que vou escrever, e, se tiver que me preocupar com a correta digitação, perco a concentração, ou melhor, nem a encontro para começar a escrever. Ou seja, a minha mente tem que estar 100% focada para o que vou fazer. Dizem que isso acontece com alguns escritores(eu não sou um escritor). A letra quando escrevo um post sai horrível, pior do que de médico, e se caprichar, não consigo acompanhar o meu raciocínio. 
   Voltando a assistente social, não insisti para continuar, não vou ficar choramingando. Mas tive que me conter, pois fiquei um pouco chateado quando ela me disse que uma família consegue "viver" com 600 reais. Se essa família tem dois filhos, alguém poderia me dizer como irão comprar o material escolar, ter uma razoável alimentação, vestuário, saúde, dentre outras coisas? Tive que sair da sala para não começar uma discussão. Ela prefere dar mais atenção aos que querem apenas se divertir lá no abrigo... Ou será mesmo preconceito com o esquizo aqui?
   Analisando bem, muitas profissões precisam da desgraça alheia para existirem:
- o farmacêutico precisa da doença
- o médico idem
- o policial precisa que hajam pessoas desonestas e desordeiras e por ai vai...




quarta-feira, 16 de abril de 2014

O albergue



vista de cima do Arsenal
    - Primeira chamada! Bom dia senhores! - nos acorda o monitor que fica no turno da madrugada.
    São exatamente cinco horas e cinco minutos da manhã. O sol ainda não raiou e aproveito então para dormir até a segunda chamada, às seis horas da manhã. Metade da galera já se levanta, alguns até às quatro da manhã já estão se preparando para mais um dia no batente.
    Esse intervalo entre as duas chamadas é o tempo que mais senti voar até hoje na minha vida. Passa num instante. É mais rápido do que o tempo que passa quando nosso time está perdendo um jogo decisivo de final de campeonato.
     Raramente a segunda chamada passa das seis horas e cinco minutos. Acordar nesse horário sem um objetivo definido é um pouco chato, sem sentido. Fico pensando no que fazer durante o dia. Como temos o prazo de sair até às seis horas e quarenta e cinco minutos, dou mais uma cochilada de dez minutos.
    Felizmente o horário de verão já se foi e mais felizmente ainda que o horário de verão é no verão né?. Já pensou se horário de verão não fosse no verão e sim no inverno? Como faríamos para nos desvencilhar da coberta quentinha? shasuahsuashasuhasuahsuahs
eu moro na "Favelinha"

mas tem o Alphaville
e o Morumbi
 
    Me levanto às vezes bem, às vezes mal. O cara que dorme no segundo andar do beliche tem noites agitadas, não sei como falar com ele para parar de balançar o beliche, pois ele é nigeriano ou angolano, sei lá. Só sei que fala rápido pra caramba com seus amigos e que às vezes atrapalha o meu sono...
Moro em uma ala conhecida como "favelinha". Tinha esse nome por que era a mais simples, mas, depois de uma reforma, agora é a mais moderna e com o melhor acabamento. Também tem a ala chamada Morumbi e uma outra chamada Alphaville. Em cima do maleiro tem uma ala enorme, mas não sei como é conhecida.
    Depois de escovar os dentes, vou para o maleiro me trocar, pois não podemos voltar para o abrigo antes das quatro horas da tarde. Os africanos têm um pouco de vergonha de trocarem suas roupas, alguns se cobrem com a toalha na hora de colocar a calça.
    Por falar nos imigrantes, senti que existe um certo preconceito contra eles. Não por causa da cor, e sim por que são de outros países. É a chamada xenofobia. Muitos caras não gostam dos africanos, afirmando que eles tiram a vaga dos brasileiros no abrigo e ainda trabalham por menos dinheiro. É uma questão complicada, pois, se analisarmos bem, será que os brasileiros que estão em outros países em busca de trabalho são bem tratados como os imigrantes que estão no Brasil? Mas me sinto triste com a situação deles, e sinto que se sentem marginalizados. Alguns até que não tem esse sentimento, falam bem o português, se enturmam com os brasileiros, mas a maioria tem esse receio de serem discriminados.
lugar do rango bom
telão para assistir o futebol no domingo

    Continuando, vou para o imenso refeitório para tomar o café com leite e um pão com manteiga. Depois, cozinho um pouco o galo até o relógio apontar seis horas e quarenta e cinco minutos, que é o tempo limite para se ficar no abrigo na parte da manhã.  Afinal, o que fazer na rua tão cedo?
    Na saída do abrigo várias vans e topics ficam estacionadas à espera de desesperadas pessoas a fim de um bico. No geral, são trabalhos muito mal renumerados: ficar o dia inteiro em pé segurando uma placa para receber 35 reais. E o almoço é por conta do trabalhador. É um trabalho meio ingrato e desumano, de tempos em tempos passa um carro no local das placas com um cara que fica vigiando se o cara está em pé ou não. Outros bicos são de distribuir panfletos e montar barracas nas várias feiras de rua de São Paulo. Geralmente se paga 30 reais sem o almoço. E, além de montarem as barracas, os caras ainda têm que vender as frutas. Nem comissão tem!
    O meu dia a dia é um pouco monótono. Biblioteca da Mooca com internet discada, almoço no restaurante Bom Prato(1 real) e ás vezes me arrisco a conhecer lugares diferentes de São Paulo. não gosto muito de pegar o metrô, é muito empurra empurra. E ainda tem essa paranoia do encoxa encoxa. Fico pensando que as mulheres estão pensando que eu só entro no metrô pensando em fazer bobice. Deu uma confusão danada uma propaganda de uma estação de rádio dizendo que o horário de pico é ótimo para se xavecar. Afinal foi uma piada de mal gosto, pois, quem, depois de um dia cansativo de trabalho, com a estação lotada, aquele  calor, aquele empurra empurra para conseguir entrar na composição, vai pensar em xavecar? Fala sério né?
    Tem mulher que diz andar de spray de pimenta no metrô de São Paulo, é uma advogada. Uma outra estava querendo fazer uma campanha para todas as mulheres usarem um alfinete em caso de uma encoxada. É uma paranoia coletiva e total nesse metrô maluco de Sampa. Outro dia uma mulher olhou para  mim e fiquei sem reação. Será que ela foi com a minha cara ou me achou um possível encoxador de mulheres? Na dúvida fiquei quietinho. Mas se ela estiver dando bola, certamente vai achar que eu sou gay. Mas e se eu me aproximar, e ela estiver pensando que eu sou um tarado de metrô? É, o melhor a se fazer é ficar quieto no meu canto mesmo.
    Geralmente às quatro da tarde já estou na porta do abrigo, que tem uma história bem bacana.
    Ele foi usado antigamente para receber os imigrantes italianos que vinham para o Brasil trabalhar nas lavouras de café, já que a escravidão havia sido abolida do nosso país. Os imigrantes eram acolhidos e depois levados para as fazendas, alguns se estabeleceram na região, por isso o  bairro da Mooca têm muitos italianos, tutti genti boa.
   O projeto nasceu na Itália, em Turim, com o intuito de ajudar pessoas necessitadas e carentes. Passou a funcionar depois em um arsenal militar desativado, por isso o nome da instituição ser Arsenal da Esperança.
   É um lugar bacana, com boas instalações. Se a pessoa não aprontar nenhuma, geralmente fica por lá cerca de seis meses. Alguns conseguem trabalho na própria instituição, geralmente na área de limpeza, refeitório e lavanderia.
   A comida é boa, as roupas de cama são trocadas duas vezes por semana. A toalha também. As roupas são lavadas por um preço simbólico. Um quilo de roupa é cobrado 10ARS(moeda local), que vale vinte centavos.

neste forno eram queimadas as roupas dos imigrantes que morriam por causa da tuberculose na época

   Enfim, o arsenal dá boas condições para a pessoa se organizar, fazer um curso e conseguir um trabalho. Provavelmente deve ser o melhor albergue do Brasil. Tem uma pequena biblioteca, mas com ótimos livros, quadra de futebol, um enorme refeitório, telão que funciona aos domingos, e outras coisas mais.
    São cerca de 1300 vagas. Depois de três meses cheguei a conclusão de que o abrigo realmente é um arsenal de esperança para alguns, mas para outros é apenas um lugar para passar o tempo. Muitos caras não querem nem pensar em trabalhar, fazer um curso, enfim, tentar mudar de vida. Ai o Arsenal da Esperança tem o nome de Casa de diversão para pessoas que não querem nada com a vida. Infelizmente, esse lance de albergue e abrigo tem um lado negativo, mas isso é tema para um próximo post.
acho que esqueceram o Macaulay Culkin no abrigo... 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Médicos e remédios: parte 2

  
  -Obs: como este post é uma continuação do anterior, é aconselhável que leiam a primeira parte para se entender esta segunda parte.

    Como a psiquiatra que havia consultado pela primeira vez não era muito paciente com o paciente maluquinho aqui, resolvi seguir o tratamento no Hospital Raul Soares, no bairro Sta. Efigênia, também em Belo Horizonte.  Também não estava muito satisfeito com o tipo de atendimento que a psicóloga estava me dando: não me informava nada sobre o que eu poderia ter, às vezes me tratando como se fosse uma criança. Não que ela não fosse atenciosa, não era isso, o que eu queria no momento era informação apenas.
    Já no Hospital Raul Soares o atendimento durava cerca de meia hora, o que era um alívio e tanto! Como é bom entrar em um consultório de um psiquiatra e poder conversar normalmente! Com o primeiro psiquiatra, a sensação na consulta é que eu estava falando no celular e que os créditos estavam acabando.
    E os médicos do Raul Soares eram bem mais atenciosos e educados, conversavam comigo não demonstrando mau humor e perguntavam sempre como estava me sentindo. Mas também não me explicaram nada sobre esquizofrenia. Acho que os profissionais da área de saúde mental deveriam fazer uma cartilha explicando sobre os diversos transtornos mentais que estão por ai, assim como se faz com a tuberculose, as DSTs, a hipertensão, a diabetes e outras doenças. Às vezes penso que não é do interesse que os transtornos mentais sejam curados, será? Acho que muita gente sai lucrando com a indústria da loucura. Acho que se houver uma cura para a esquizofrenia, muitos psiquiatras sairão perdendo muito dinheiro. Mas também não vou endemonizar todos os psiquiatras. Acredito sim que a maioria seja do bem e que queiram o melhor para os seus pacientes. O cigarro, por exemplo,  traz muito prejuízo ao governo, talvez por isso que tem muita campanha contra o cigarro espalhada por ai.
    É como se fosse um jogo de futebol: quanto mais informações tivermos sobre o adversário, melhores são as chances de derrotá-los.
     Voltando a história: como estava me sentindo bem e já estava recuperado fisicamente também, decidi então que já era hora de voltar ao trabalho.
fofocas e boatos podem enlouquecer uma pessoa
      Após várias tentativas frustradas de encontrar emprego em BH, decidi voltar a trabalhar na cidade onde tive o meu primeiro surto, o que foi um erro quase que fatal. Não menciono o nome desta cidade aqui no blog pois não tenho ressentimento nenhum contra ela, tem muita gente boa por lá. Não podemos generalizar "a cidade não presta e tals". O problema é que havia muita gente que não tinha o que fazer, e a cena das pessoas "conversando" no banquinho em frente às suas casas era muito comum. Em alguns lugares um dos assuntos principais era a minha pessoa, e o motivo para isso sinceramente não sei. Era um pacato cidadão mesmo, só saindo de casa para trabalhar, jogar bola e correr. E ir na padaria, é claro. Sou mineiro e chegado em um bom pão de queijo. Passei e morei em diversas cidades de Minas Gerais e nunca cheguei a ser uma pessoa tão comentada como era naquele lugar. Se falaram sobre mim nas outras cidades, as pessoas então pelo menos eram mais discretas, pois não cheguei a ouvir nada.
    Então não deu outra: após cerca de um ano trabalhando por lá, surtei novamente. O atendimento na área de saúde mental não poderia ser pior: um único psiquiatra para uma população de cerca de 70 mil habitantes! O salário deveria ser tão ruim que o cara só atendia uma hora por dia e, para piorar ainda mais a situação, sempre chegava atrasado. A consulta geralmente durava cinco minutos, e na porta já tinha um outro paciente com o prontuário na mão, só faltando um funcionário nos empurrar, para agilizar o atendimento.
    Testei vários medicamentos sem sucesso. E alguns eu só cheguei a tomar uma única vez, afinal tinha que trabalhar, ficar acordado de noite e tals. O psiquiatra chegou a me ameaçar, dizendo que, se não melhorasse imediatamente, seria internado no manicômio Galba Veloso, em Belo Horizonte. Chegou também a insinuar que eu estava fingindo ter a patologia, talvez para conseguir me aposentar. Negava-se a me fornecer o laudo para que eu fizesse a perícia no INSS. E como não tinha grana na época para pagar um psiquiatra particular, fiz duas perícias sem laudo mesmo. E o engraçado é que passei nas duas, acho que por estar muito confuso e estressado naquela época.
    A psicóloga nesta cidade também não ajudava muito, se limitando apenas a me ouvir e a fazer algumas anotações. Quando falava alguma coisa era besteira. Chegou a dizer que o pessoal da cidade me admirava por ter um trabalho onde é exigido um certo grau de inteligência. Mas ela não sabia que na época estava era sendo esculachado por grande parte dos moradores daquele lugar, talvez por ter dito certa vez que a cidade era uma roça e que o pessoal só sabia conversar sobre cavalos. Essa psicóloga também não me disse nada sobre esquizofrenia e continuei a sem saber o que eu tinha. Ela cometeu também um erro imperdoável: contou para o dono da firma onde eu trabalhava algumas coisas que foram ditas dentro do consultório. Provavelmente ela pensou que, pelo fato de morar na firma, talvez eu tivesse algum vínculo de amizade com o cara, sei lá. Acho que talvez ela não saiba que geralmente os patrões se tornam os piores inimigos quando uma pessoa começa a receber o auxílio doença. Na maioria dos casos o empregado é demitido quando volta da licença. Isso em se tratando de transtornos mentais, é claro.
    Essa psicóloga também cometeu um outro erro, também imperdoável: Ela já sabia que eu não me dava bem com o haldol, e, não sei por que, resolveu me convencer que esse medicamento na forma injetável é melhor do que em drágeas. Como não entendia nada de medicamento na época, aceitei tomar a injeção. Também sou hipocondríaco e gosto de tomar vacinas...
    As reações adversas foram complicadas, rigidez muscular e acatisia, inquietação misturada com sonolência. Isso mesmo! Ora ficava deitado na cama, e depois ficava andando de um lado para outro sem parar. O efeito dessa injeção durou um mês e foi uma das piores coisas que me aconteceu em relação a esquizofrenia. No final das contas ela me disse que havia se esquecido de me receitar o biperideno, que é usado justamente para cortar os efeitos colaterais do haldol. Afinal, essa profissional é uma psicóloga ou uma psiquiatra para ficar me receitando medicamentos?
    Eu não vou postar um vídeo sobre as reações adversas do haldol, pois é algo um pouco triste de se ver. Mas quem quiser olhar, é só digitar discenesia tardia no youtube.
    Nessas condições não tinha como melhorar. Pressão no trabalho e atendimento não muito bom na área de saúde mental. Fui parar nas ruas novamente e foi ai que acabei indo para o albergue de Ipatinga. Comecei a ser atendido no CLIPS e fui melhorando aos poucos. Também ficar longe dos boatos e das fofocas daquela cidade foram muito importantes para a minha melhora. Os profissionais do CLIPS eram muito atenciosos e educados comigo, chegando a telefonar para o meu celular quando uma consulta era marcada para uma outra data.
    Não sou só de reclamar, tenho que agradecer e muito aos bons profissionais pelos quais passei desde quando tive o meu primeiro surto. No final do ano passado, fui muito bem atendido em um CAPS de Belo Horizonte. Estava querendo experimentar a quetiapina, um medicamento que é muito bem recomendado pelos usuários e portadores que conheço.
    Então fica a dica: Quem tem que ser paciente são os psiquiatras, e não nós, os portadores. Queremos apenas sermos tratados com respeito e dignidade, e ter um tempo mínimo para tentar explicar os nossos problemas. Afinal, nem todo mundo tem condições de pagar um psiquiatra particular. Os profissionais que trabalham no SUS são muito bons, mas falta estrutura e condições de trabalho. É quase impossível atender uma pessoa em um período de dez minutos, como ocorre em certos lugares.
    Resumindo: não sou totalmente contra os medicamentos. Faço meus questionamentos pois acho que há muito o que evoluir ainda, os efeitos colaterais ainda são terríveis. Muitos cuidadores chegam a pensar que os medicamentos são uma maravilha, pois tiraram seus entes queridos de um surto. Mas o que mais que o medicamento tira? A vontade de viver? Só quem toma é quem sabe explicar...
    E em relação aos profissionais da saúde mental, acho que, como em outras áreas, existem os bons e os maus profissionais. Muita gente interessada em não curar a loucura e não cessar sua fonte de renda. Ou será que todos os psiquiatras e psicólogos são uns santos?

    Esse vídeo vi em um grupo do facebook, muito legal a letra.
Meu nome é John Alejandro, e sou esquizofrênico Não sou nada de atrativo, muito menos fotogênico Meu melhor amigo é um palhaço que me aconselha Tem olhos de sapo, e vive dentro da minha orelha Ele fala muito e às vezes se irrita E quando pergunto coisas, quase nunca me responde Mas ele dá a vida por mim e eu dou a vida por ele Também sabemos que existe um desnível Dentro do nosso arrededor As pessoas pensam que estou doente Porque corro pela cidade com meu caderno Falando com cachorros, com short curtos e umas botas de Vaqueiro Um guarda-chuva na mão, e um chapéu de toreiro Mas não estou tão mal, tambem falo com gente Falo muitas mentiras para brincar com a mente Gosto de dar as direções erradas do caminho Para que as pessoas sempre chegue tarde ao seu destino Ando com duas fadas madrinhas voando por cima Enchendo seringas, repleto de vitaminas e morfina Até minhas veias inundarem E fico fazendo caretas, e as pessoas se confundem Desculpa-me, se estou rindo muito É que ontem minha mãe morreu, e me despidiram do trabalho Devo 6 meses de aluguel, e nem 1 centavo na carteira E nao tomo banho desde outubro do ano passado Meu corpo é todo cicatrizado Com cortes profundos e queimaduras de primeiro grau Mas não é nada grave, nada delicado Nunca percebo porque estou o dia todo anestesiado Gosto de caminhar sozinho, só assim falo com o vento Nunca fiz sexo como uma freira num convento Tranquilo, ainda que sei que posso explodir De repente como uma mina na segunda guerra mundial Sou um psicomaníaco antisocial Te comprimento, lavo as mãos com sabonete antibactericida Sou um paciente mental, admito Mas isso não te dá o direito de me olhar torto E a me tratar de longe Venha, chegue perto nao vou te fazer nada O que parece sangue na minha camisa, é molho de tomate derramado Venha, amiguinho chegue perto as tesouras que tenho são pra Aparar o jardím Sou um assassino em serie, como os de miniserie Atrás da porta, coleciono gente morta Para poder matar a fome, meu cafe da manha é cereal com sangue Não tenho familia, porque matei minha familia As vezes medicos me visitam Com fantasias de fantasmas tentando alegrar-me Porque sofro de transtornos, ontem coloquei meu gato no forno E coloquei seu rabo como enfeite Quando tenho crises começo a suar sodío E grito forte para por o odio para fora Também tenho medo das sombras Não tenho coragem de ir ao banheiro E urino no tapete É normal, so tenho 13 anos Ainda ando de bicicleta e não falo com estranhos Mas se não tomo os remedios durante o ano Todos os dias sonho te machucando Picar-te em pedacinhos com estas mesmas tesouras Colocar-te em sacolas plasticas e te guardar na geladeira Não se assustem, hoje tomei meus remedios Estou de bom humor, bem contente, com bom hálito Eu sei que tenho cara de serio mas estou contente Agora mesmo vou brincar com meus amigos no cemitério, Na verdade estou apaixonado por um dos meus amigos Faz um ano que morreu sem deixar rastros nem testemunhas Uma menina linda com a cara cor violeta Todas as noites me acompanha a andar de bicicleta Ela não fala porque é surda e muda E por isso as pessoas pensam que estou falando sozinho e que Preciso de ajuda Sou um assassino em serie, como os de miniserie Atrás da porta, coleciono gente morta Para poder matar a fome, meu cafe da manha é cereal com sangue Não tenho familia, porque matei minha familia


Utilidade pública. Este jovem está desaparecido em Manaus, mais informações no link abaixo
http://www.emtempo.com.br/editorias/dia-a-dia/16120-jovem-com-problemas-de-esquizofrenia-est%C3%A1-desaparecido-em-manaus.html

terça-feira, 8 de abril de 2014

Médicos e remédios - parte 1

    Não sou muito de ficar em cima do muro, por isso achei que era necessário comentar em um post a minha relação sobre os medicamentos e os profissionais da área da saúde mental.  Em alguns grupos do facebook sobre transtornos mentais sempre questiono a eficácia dos medicamentos e os efeitos colaterais. Isso gera uma certa polêmica entre os cuidadores e os profissionais. Já os portadores, em sua maioria, se queixam dizendo que os medicamentos não são essa maravilha toda e que não conseguem trabalhar ou estudar sob o efeitos dos antipsicóticos.
    O meu primeiro contato com a saúde mental foi por volta dos sete anos. A minha avó já desconfiava de que havia algo de errado comigo. Eu também desconfiaria se hoje visse uma criança com o meu comportamento naquela época: humor oscilante, muito curiosos, gostava de ler diversos livros. Às vezes ficava com o olhar vago, sem um pensamento fixo. Também ficava nervoso às vezes, chegando a quebrar uma televisão, acho que ainda era preta e branca. Na escola era brigão. Brigava por qualquer motivo e até sem motivo, me achava o rei da cocada preta. ( de onde vem essa frase?) Mas eu só implicava com os alunos menores do que eu. No dia em que impliquei com um cara maior do que eu e levei uma surra, constatei que esse negócio de querer ser o machão do pedaço não iria dar certo não. Como a minha mãe praticamente não falava nada, vivendo em seu mundo, tive que ir aprendendo a viver com as lições que a própria vida nos ensina.
    Mas voltando ao meu primeiro contato com a saúde mental, fui levado para um hospital em Belo Horizonte, para fazer um eletroencefalograma.
    - Vamos ver como que "tá" a cabecinha do Zico?- perguntou o médico tentando me agradar. E conseguiu, já que o Zico para mim é o melhor jogador que já vi jogar.
     Eu não tinha a menor noção do que iria fazer naquele hospital, mas comecei a ficar tenso quando, já na maca, a enfermeira começou a passar um gel em minha cabeça e a colocar aquele monte de fiozinhos. Cheguei a pensar que iria levar um choque para consertar as minhas maluquices de criança.
    - Não precisa ficar apertando os dentes...- me pediu a enfermeira.
    - Ué, como ela sabe? - me perguntei, espantado.
    No final do exame, saiu do aparelho aquelas folhas com as ondas cerebrais. Provavelmente devia estar tudo em ordem, já que depois desse episódio não voltei mais ao hospital.
    E fui levando a minha vida, com as minhas maluquices inofensivas. Não vou falar todas, mas uma que tinha era dizer que tinha um irmão gêmeo para os meus colegas da velha rua Sertões, em Belo Horizonte. Mas não era uma amigo imaginário, eu era os dois irmão gêmeos! Um era mais calmo, sério, certinho e sempre andava arrumado e com o cabelo penteado. Já o outro era exatamente o contrário: agitado, falante, e cabelo todo bagunçado. Um vivia falando mal do outro. Cada dia eu me portava como um irmão diferente. Às vezes até no mesmo dia eu fazia essa troca de identidade, trocando de roupa e incorporando o outro irmão.
    E tive muitas outras maluquices, mas nada de grave. A maioria mesmo era em relação aos pensamentos, não demonstrava externamente o que se passava na minha mente. Mas deu para ir levando a vida, pensando que talvez eu fosse uma pessoa extremamente tímida e um pouco esquisita também.
    Estudei eletrônica e nunca tomei bomba. As professoras me achavam um menino inteligente, mas eu estudava apenas o suficiente para passar de ano e nunca tomei bomba.
    Tive que abandonar o curso de eletrônica no último ano por falta de grana e comecei a trabalhar como operador de som, por volta dos 17 anos. Era algo que eu fazia com prazer, não me importando em virar noites e mais noites carregando caixas de som e ouvindo aquela zoeira toda.
    Mas aos poucos fui me tornando uma pessoas desconfiada e arredia, e os surtos começaram. O segundo foi muito intenso. As alucinações foram tão reais para mim que abandonei o emprego e fui parar nas ruas de BH, depois de uma frustada tentativa de auto extermínio. Fiquei nas ruas de BH por um período de cinco meses ou mais, até estar totalmente recuperado, sem o uso de medicamentos. Mas, analisando tudo o que me havia acontecido, tinha chegado a conclusão de que era necessário consultar urgentemente um psiquiatra, pois desconfiava que havia algo de errado comigo. Cheguei a pensar se alguém tinha colocado alguma droga em algo que havia comido ou bebido.
    Essa minha consulta durou cerca de sete minutos, acreditem! Foi pelo SUS, e, havia muitas pessoas para serem atendidas naquele dia. O psiquiatra me perguntou o que eu tinha:
    - Se soubesse não estaria aqui né?- respondi, um pouco irritado com uma pergunta tão estranha.
    - O que te aconteceu? - foi sua segunda pergunta.
    Ai sim fiquei agitado e confuso, como iria explicar tudo o que havia me acontecido em tão pouco tempo? Então, depois de alguns minutos, a receita e o diagnóstico estavam prontos. 25mg de melleril e o diazepan para me ajudar a dormir.
    Para mim o erro desse psiquiatra não foi ter perguntado como eu estava naquele momento. Estava me sentindo muito bem, havia sido ajudado por muitas pessoas, o que ajudou a espantar os inimigos que estavam em minha mente. Já não tinha receio de conversar com as pessoas e não estava mais com as paranoias. Para se ter uma ideia, havia engordado 20kg em um mês. Havia noites que tinha que agradecer a comida que me era oferecida.
 


    A única vez que tinha visto a palavra esquizofrenia foi quando peguei no disco de vinil da banda mineira Sepultura. Era o nome do álbum e a capa mostrava uma pessoa com uma camisa de força. 
    - Será que tenho esquizofrenia? - cheguei a perguntar para o psiquiatra.
    - É, tem alguns elementos...- me respondeu com uma frieza que chegava a me incomodar, pois queria respostas e soluções para o o meu problema. 
    Depois da consulta, eu me cheguei a fazer esta pergunta . E a resposta foi negativa. Eu não achava que havia necessidade de ficar em uma camisa de força. Não era agressivo, não era um louco, não rasgava dinheiro e também não comia excrementos. Essa era a ideia que eu tinha da esquizofrenia na época, por isso não critico as pessoas que ainda hoje pensam dessa forma. Cabe a nós mesmos portadores, lutar para que a falta de informação ainda reine nos dias atuais. Claro que os profissionais da área de saúde mental também poderiam fazer algo, além de nos medicar. 
    Na época havia procurado algumas igrejas. Pensava que o meu problema era de origem espiritual. Mas, quando ia na frente do altar, mil caiam ao meu lado esquerdo e um monte a minha direita, mas eu não caia.
cheguei a pensar que o meu problema fosse espiritual
     - É, talvez o demônico que esteja em mim seja muito forte e eu precise de um exorcista...- cheguei a pensar, talvez influenciado pelos filmes de terror que havia visto na infância. 
    Essa história é longa e confusa, por isso resolvi escrevê-la em um livro.
    Mas foi assim que me tornei dependente em medicamentos. Será que iria surtar novamente sem os medicamentos? Sinceramente não sei...
     A segunda parte desta relação com os medicamentos e os profissionais no próximo post. 

Algumas músicas são como uma poesia, aliás, a letra é uma poesia, que foi "musicada" pelo grande José Ribamar Coelho Santos, mais conhecido como Zeca Baleiro,


Zeca baleiro 
Nalgum lugar

Nalgum lugar em que eu nunca estive

Alegremente além de qualquer experiência
Teus olhos tem o seu silêncio
No teu gesto mais frágil há coisas que me encerram
Ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos nalgum lugar
Me abre sempre, pétala por pétala
Como a primavera abre, tocando sutilmente, misteriosamente
A sua primeira rosa, sua primeira rosa



Ou se quiseres me ver fechado, eu e minha vida
Nos fecharemos belamente, de repente
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda parte
Nada que eu possa perceber nesse universo iguala
O poder de tua intensa fragilidade, cuja textura
Compele-me com a cor de teus continentes
Restituindo a morte e o sempre cada vez que respiras
Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
Só uma parte de mim compreende que a luz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas



Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
Só uma parte de mim compreende que a luz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Paranoica Mente

 
      Há alguns dias atrás fui há uma consulta no posto de saúde do parque da Mooca. Não posso ficar muito tempo sem o meu, o nosso pan de cada dia.
    O médico foi bem sem educação logo no início:
    - Qual droga você usa?- perguntou, logo de cara.
     Respondi educadamente que não usava droga nenhuma, fazendo um enorme esforço para não dizer outras coisas. Deu vontade de dizer que a única droga que usava era o diazepan mesmo, que foi receitada por um médico sacana que sequer me informou que o medicamento causava uma enorme dependência.
    Quando disse que o motivo de estar ali era apenas para pegar a receita do diazepan, o médico começou a me fazer um monte de perguntas, chegando a ser até um pouco inconveniente. Para que tanta burocracia para pegar um medicamento que se toma há mais de doze anos? Será que não dá para apenas trocar a receita antiga por uma nova? O posto de saúde já vive lotado, não tem cadeiras, vive cheio de pernilongos, temos que esperar cerca de três horas para sermos atendidos, e eles nos mandam voltar apenas para pegar algo que nem é preciso de uma consulta? E o pior é que nos dão apenas 30 comprimidos. Vai entender...
   Quando disse que tinha esquizofrenia ai ele queria por que queria que eu tomasse um antipsicótico qualquer. Para ele é fácil receitar, afinal quem tem que acordar às seis da manhã sou eu né? Quer dizer, várias pessoas precisam acordar cedo, mas dopadas é complicado né?
    Não me considero um sabe-tudo, pelo contrário até, por achar que nada sei é que continuo a estudar e a pesquisar sobre vários assuntos. O tema principal, no momento, é claro que não poderia deixar de ser a esquizofrenia. E gosto de questionar muito, e muitas pessoas interpretam isso de uma forma errada, como se fosse uma rebeldia. Em um certo grupo do facebook os moderadores pensam que eu incentivo o não tratamento da esquizofrenia. Não é bem isso. Acho que somente com as reclamações dos usuários dos medicamentos é que os pesquisadores irão procurar melhoras formas de se tratar a esquizofrenia. Para os cuidadores está tudo bem, a pessoa fica dopada e não irá dar trabalho nenhum. Mas o portador está feliz? Está engordando muito? Não fica muito desanimado e sonolento? Pouco importa, o importante é que não está dando trabalho.
    Creio que evolui bastante em relação ao uso do diazepan. Na época dos sintomas positivos, não saia de casa sem uma cartela no bolso e não era raro ter que tomar um ou mais comprimidos durante o dia. Certa vez, entrei em desespero quando, já na rua, ao colocar a mão no bolso, constatei que havia esquecido a cartela do medicamento que evitava que eu entrasse em colapso. Fiquei sem saber o que fazer, olhando de um lado para outro e, meio que por instinto corri até uma padaria a fim de me empanturrar com tortas de chocolate. A ingestão dessas guloseimas  funcionavam até certo ponto, o problema era os meus triglicerídeos, que estavam muito altos, por volta dos 600mg.
   Já cheguei a tomar dois comprimidos de 10mg de diazpen por noite. Não estavam mais fazendo efeito. Mudei para o levozine, mas esse medicamento é dose para leão. Era um sacrifício danado quanto tinha que fazer uma necessidade durante a madrugada. Parecia que estava de porre e saia trombando em tudo o que via pela frente. Hoje, depois de  muita luta, consigo dormir razoavelmente bem com apenas um comprimido de 5mg.  E, mesmo quando durmo pouco, acordo melhor do que tivesse dormido sob efeito dos medicamentos mais fortes. Como disse, evolui bastante em relação ao uso do diazepan. Se antes eu não conseguia ir ao centro de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, hoje vou ao centro de São Paulo sem a cartela do medicamento no bolso como precaução. A maturidade, a experiência com a patologia foram os principais fatores para essa evolução. Claro que estando nos sintomas negativos as chances de ter um surto são bem menores. Até parece coisa de mulher, estar de tpm ou não, só que no meu caso, são os sintomas negativos e a fase dos positivos shasuhasuahsuashs.

    Também me parece que a produção da adrenalina e outras substâncias que talvez sejam perigosas para os esquizofrênicos diminua com a idade. Hoje sinto que não tenho tanta adrenalina como antes, e talvez a dopamina também tenha diminuido, aliás, muita coisa diminui depois dos 40 né? shaushasuhas
    Acredito também que certos alimentos aumentam a produção da dopamina. Fico muito agitado quando misturo café e chocolate, e sinto que meus pensamentos ficam um pouco alterados.
    Os surtos diminuíram, mas as paranoias não. Voltando a consulta, o médico foi atencioso, apesar de ser um pouco chato. Não sou só de reclamar, o cara até que se mostrou um profissional interessado no estado de saúde do paciente aqui. Me propôs um hemograma completo, e eu, como bom hipocondríaco que sou, não recusei né? Tinha até teste de HIV.
   Bem, o exame estava demorando um bom tempo para ficar pronto. Não estava apreensivo. Sabia que, como sempre, com exceção dos triglicerídeos, todos aqueles numerozinhos do hemograma estariam dentro do limite considerado aceitável.
    Mas não sei bem como isso aconteceu, de uma hora para outra comecei a ficar incomodado quando algumas pessoas do parque da mooca ou de qualquer outro lugar olhavam para mim.
    " O exame de aids deu positivo, e o médico contou para a enfermeira que contou a noticia para todo mundo!"- comecei a pensar.
    Esse pensamento começou a tomar conta de minha cabeça apesar de não ter me descuidado nas minhas poucas relações que tive nos últimos anos.
    Ou será que estava com câncer? Será que iria aguentar uma quimioterapia? Por que será que as pessoas estão olhando para mim? O que iria fazer se estivesse mesmo com HIV? Essas e outras questões começaram a tomar conta dos meus pensamentos e frequentemente ia ao posto de saúde perguntar pelo exame que não ficava pronto de jeito nenhum. Após cerca de 40 dias enfim ele chegou. Mas, quando fui retirá-lo, a atendente me informou que só poderia recebê-lo marcando uma nova consulta. "Provavelmente o exame deu positivo e a notícia teria que ser dada com cuidado".-cheguei a pensar.
com exercícios físicos, alimentação adequada e o ômega 3 é possível reduzir sim os triglicerídeos
     Foram dez dias de espera e muita apreensão até que a notícia me fosse dada, quer dizer não dada. Não estava com aids e tudo estava em ordem, com exceção dos triglicerídeos, como já havia previsto. Mas foi uma boa notícia, pois, graças ao ômega 3 e aos exercícios físicos, a taxa caiu de 580mg para 270mg. O médico que consultei pela última vez queria me receitar sinvastatina para diminuir essa gordura no sangue. Mas disse a ele que iria conseguir sem a ajuda desse medicamento que detona o fígado da gente. E o resultado está ai. Daqui há alguns meses irei fazer outro, e postarei aqui o resultado. Recomendo a todos o ômega 3. Claro que devemos fazer exercícios físicos e tirar da alimentação uma série de coisas.
    Sei que falo muito nesta questão da aids, mas é algo que me incomoda e muito ainda. Não posso emagrecer que já penso que todos estão dizendo que estou com HIV. É passado, eu sei, mas não sai de minha cabeça.A minha mente não é um HD, que pode ser limpo a qualquer momento, podendo ainda se fazer um back up das boas recordações. Quando estava surtado, no ano de 2002, cheguei a pedir a um policial para ser preso, pois cheguei a pensar que poderia ter contaminado algumas pessoas. O sentimento de culpa exagerado, apesar de não ser muito divulgado, é um dos sintomas da esquizofrenia e pode enlouquecer qualquer um. Comecei a me achar culpado por uma série de coisas que não tinham nada a haver com nada e me senti a pior pessoa do mundo. Achava que merecia ser punido por tais coisas. Eram coisas sem sentido, tudo de errado que havia acontecido era culpa minha. Não teve jeito, a solução que encontrei foi tirar a minha própria vida. mas, felizmente fracassei nas minhas tentativas.


Ajudem-me a encontrar Luciene Camila!!!
    Pessoal, eu sei que o blog não é um programa de televisão, mas estou escrevendo estas linhas como uma forma de desabafo também.
   Conheci Lucine Camila por volta do ano de 1998, na cidade de Rio Vermelho. Estava trabalhando na sonorização da festa da cidade. Ela foi até o palco e me pediu para tocar uma música. Fiquei apaixonado por seus lindos cabelos encaracolados e loiros. Ficamos juntos por dois dias que foram muito bons.
    Anos depois voltei a mesma cidade, para a mesma festa. O boato de que estava com aids circulava na cidade onde eu morava. A festa da cidade iria durar três dias. Infelizmente um dos meus "colegas" de trabalho comentou com alguém da cidade sobre essa notícia. Como era uma cidade pequena, o boato se espalhou rapidamente, e os irmãos de algumas garotas com quem havia ficado nos anos anteriores pareciam estar enfurecidos, talvez pensando que eu poderia tê-las contaminado, apesar de não ter saído dos beijos e abraços. Os meus colegas ficaram meio desesperados, deu para ouvir a conversa no hotel. Queriam pagar a minha passagem de volta, mas, de dentro do quarto, ouvindo a conversa, resolvi ficar, pois sabia que não tinha feito nada demais. Nunca iria querer fazer algo de mal a ninguém, se por acaso estivesse com aids. Sou contra pessoas que contaminam outras só para se vingarem. Para mim isso deveria ser considerado um crime, apesar de ser de difícil comprovação.
eu nunca tive aids! Se tive então fui curado. shaushasuashaushasuahs

 No sábado, encontrei Luciene. Ela não se aproximou de mim. Estava há uma distância de uns 30 metros, e o seu olhar foi pior do que qualquer coisa. O que ela me passou com aquele olhar não posso publicar aqui. Depois fiquei sabendo que ela ficou arrasada e que iria fazer o teste do HIV, apesar de ficarmos só nos beijos e abraços. Fiquei muito triste e decepcionado, foi uma das piores coisas que aconteceu na minha vida. Uma pessoa que gostei tanto pensar que eu fosse um monstro. Já tentei encontrá-la pela internet, sem sucesso. Até mandei carta para o programa do Ratinho. Não quero ficar com ela novamente, nem sei se está casada e tem filhos. Só gostaria de dizer que nunca tive aids e que seria incapaz de fazer uma coisa dessas. E gostaria de dizer que ela foi uma pessoa especial em minha vida. Eu também iria ficar grilado se ficasse sabendo que beijei uma pessoa com aids, apesar de saber que as chances de contaminação são mínimas através desse ato. .
    Luciene Camila nasceu na cidade de Rio Vermelho, em Minas Gerais, mas, por volta do ano 2000 se mudou para São Paulo, perto da Raposo Tavares, segundo sua mãe. Ela deve ter uns 35 anos atualmente. É loira, baixinha, etc. Quem souber alguma forma de se encontrar pessoas me dê uma dica ai. No facebook ela não está, ou pelo menos não se registrou com o seu nome verdadeiro.


 " Medo  não quer dizer falta de coragem. Coragem é ter vontade de enfrentar os nossos medos."
         autor: eu mesmo shasuahsuashuashs