segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Os 12 passos do esquizofrênico, conhecido ou não

   
    Como já mencionei em meu livro, não tenho a pretensão de criar um manual de como se curar da esquizofrenia. Até hoje tenho alguns sintomas da patologia que atrapalham um pouco a minha vida social, principalmente.
    A minha intenção é apenas repassar um pouco do que aprendi com o passar dos anos, através dos estudos e da "prática" mesmo, no convívio com o transtorno. Vale ressaltar ainda que, na esquizofrenia, a expressão "cada caso é um caso" tem um sentido bem maior.
    Muitas entidades e associações têm usado os 12 passos dos alcoólicos anônimos para ajudarem as pessoas a controlarem seus vícios, impulsos e outras coisas mais: os narcóticos anônimos e os comedores compulsivos são alguns exemplos.
    Quando realmente tive a certeza de que era a esquizofrenia que assolava os meus pensamentos, não entrei em pânico e tampouco fiquei revoltado. As psicólogas com quem fiz terapia nunca falaram abertamente comigo sobre o assunto. Apenas  faziam algumas perguntas e anotavam algo em uma folha de papel. Fiquei cerca de três anos com muitas dúvidas, chegando a pensar algumas vezes se o que eu tinha era um problema de origem espiritual.
    Só tive a certeza que era portador de esquizofrenia no ano de 2005, ao fazer a minha primeira perícia no INSS. O psiquiatra havia me passado o laudo e li atentamente o relatório, que falava numa tal de F-20, que não era caminhonete.
    A primeira coisa que fiz foi procurar um CID na  biblioteca municipal de Ipatinga(MG), e, a partir daí, comecei a me conhecer melhor, entendendo um pouco a patologia da mente dividida.
    Não fiquei revoltado com a situação, já que estava encontrando algumas respostas para o meu jeito meio estranho de ser e agir. Me achava um cara esquisito, as pessoas com quem eu convivia também achavam. Pensava que era timidez excessiva. Depois que acabei cedendo a tecnologia e conheci o mundo da informática, pude, pela internet, estudar mais e melhor o assunto. Foi muito benéfico para mim, participar de várias comunidades no orkut e conhecer pessoas que tinham os mesmos problemas que eu tinha. Não tenho vergonha de dizer que tenho esquizofrenia, acho que existem coisas piores(políticos, por exemplo).
    Certa vez, depois de um surto, fui levado para uma clínica de recuperação para viciados em drogas e álcool, apesar de não ter nenhum envolvimento com essas substâncias. A verdade era que o dono queria me aposentar e me interditar, e eu teria que passar o resto dos meus dias naquele lugar.
    Mas não aguentei ficar um mês confinado dentro daquela casa, que mais parecia um big brother. Tive que ficar falando muito no ouvido do proprietário até ele não aguentar mais e me liberar.
    Foi complicado ficar trancado dentro daquela casa, não havia uma horta, um campinho de futebol para aliviar o stress. Mas foi lá que conheci os 12 passos dos alcoólicos anônimos e, desde então comecei a pratica-los, adaptados a minha realidade, que é a esquizofrenia.
     Primeiramente irei citar os doze passos e comentá-los. Depois, irei adaptar os passos para a esquizofrenia,  sem pretensão de criar um manual para o portador. É óbvio que, antes de pensarmos em adotar esses passos, é muito importante temos a certeza que o que temos é esquizofrenia. Às vezes, os profissionais da área de saúde mental demoram anos para se chegar a um diagnóstico. Não é raro psiquiatras darem diagnósticos diferentes para um mesmo caso. É muito comum, por exemplo, haver divergências sobre o que uma pessoa tem é esquizofrenia ou transtorno de humor, pois os sintomas são bem parecidos.

Primeiro passo
"Admitimos que éramos impotentes perante o álcool, que tínhamos perdido o controle de nossas vidas."
    Adaptando o passo para a esquizofrenia, seria como admitimos que temos a patologia e que precisamos de ajuda. Esse é o mais difícil passo. Como admitir sermos um "louco", ter uma doença de doido? Devido ao preconceito e falta de informação, temos em mente que esquizofrenia é sinônimo de loucura, agressividade, falta de capacidade de realizar uma simples tarefa. Rasgar dinheiro e outras coisas mais também fazem parte desse "pré conceito".
    Nesse caso, a informação é muito importante. Ao conhecermos melhor a esquizofrenia, veremos que as coisas não são bem assim. É claro que um portador de esquizofrenia surtado pode ser agressivo e representar perigo para a sociedade, mas, o que a maioria das pessoas desconhecem é que o portador de esquizofrenia é agressivo com ele mesmo e as chances de uma tentativa de auto extermínio são grandes. Segundo pesquisas, 10% dos esquizofrênicos comentem suicídio. Acho que a porcentagem de tentativas é bem grande, mas não consegui achar uma fonte confiável sobre as estatísticas das tentativas.
http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=105
    Uma vez conhecendo melhor a esquizofrenia, a pessoa passa a se conhecer melhor. Não ter orgulho e admitir que precisa de ajuda é consequência. Claro que não precisa sair por ai espalhando para os quatro cantos que é portador da patologia, o importante é admitir para si próprio e para as pessoas em que você confia e que possa te ajudar nessa situação.


Segundo passo
"Viemos a acreditar que um poder superior a nós mesmos poderia devolvermos à sanidade. 
    Bem, eu não tenho o costume de falar sobre religião, para evitar discussões que não levam a nenhum lugar. Tenho minhas crenças e convicções, mas o mais importante é a pessoa ter fé, independente de crença e religião. E ter fé em si próprio, o que é muito importante também. 
    Creio que muitos portadores já devem se ter perguntado: "Mas por que logo eu?" "O que eu fiz para merecer tal castigo?" Eu também já me fiz esta pergunta, pensando que poderia ter feito algo em uma outra encarnação, sei lá. Mas, analisando o mundo em nossa volta, vamos perceber  que não somos os únicos a sofrer e ter problemas. 
    Esse passo vai da crença de cada um, e também da não crença, respeito a opinião de quem é ateu ou agnóstico. Vou evitar me aprofundar nas questões espirituais dos doze passos, pois a minha intenção aqui no blog não é a de tentar convencer as pessoas a terem a mesma opinião do que a minha. 


Terceiro passo
"Decidimos entregar nossa vontade e vida aos cuidados de Deus, na forma em que o concebíamos".
    Como já disse no segundo passo, não vou entrar muita na questão espiritual. Mas creio que, além da fé, é preciso agirmos e fazermos a nossa parte. É uma batalha a ser vencida contra a esquizofrenia. O conhecimento sobre o "adversário" é uma boa tática a ser usada. Não me refiro a uma briga no sentido literal, pois na verdade o que temos que fazer é aprender a lidar e conviver com a esquizofrenia, já que, até hoje ela ainda não tem cura. 


Quarto passo
"Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos"
    Esse passo não consegui achar uma ligação direta com a esquizofrenia. 
    Creio também que não exista uma relação direta esquizofrenia x cárater. A patologia não interfere no caráter do indivíduo, ou seja, os portadores de esquizofrenia podem ser bons ou maus, honestos ou não, como todas as outras pessoas. 

Quinto passo
"Admitimos perante Deus, perante nós e perante o outro ser humano, a natureza de nossas falhas. 
    Esse quinto passo é bem complexo. A primeira parte, relativa a espiritualidade, como já disse, não vou comentar, respeitando a crença de cada um. A segunda parte é admitir a natureza de nossas falhas. Adaptando esse passo a esquizofrenia, seria como assumirmos para nós mesmos que temos a patologia. É difícil, mas sem esse passo não iremos procurar ajuda. É óbvio que no caso da esquizofrenia não é aconselhável sair por ai falando para todo mundo que temos o transtorno. Ainda mais se a pessoa estiver o mercado de trabalho, o preconceito é tão grande que, se por acaso a esquizofrenia fosse considerada deficiência, o portador, ao procurar trabalho, dificilmente conseguiria emprego nas empresas que oferecem vagas para deficientes, pois estas, provavelmente irão dar preferência a outros tipos de deficiências.
   Mas conversar sobre o assunto com pessoas de confiança ajuda e muito. Sei que é difícil um esquizofrênico confiar em alguém, somos assim por natureza(e eu que sou mineiro então?) mas a família é muito importante nessas horas. Se já é difícil enfrentar a esquizofrenia com a ajuda de amigos e familiares, imaginem sozinho.

Sexto passo
"Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter"
    Mais um passo com conteúdo espiritual. Não posso entrar em detalhes, mas, creio que, para evoluirmos, é preciso agir e fazermos a nossa parte. Deus, ou o ser superior, não nos dá tudo, apesar Dele ter poder  para fazer isso. Ele quer que demonstremos o que desejamos. O caminho nós escolhemos, ou não?
    Devemos assumir nossos erros. Muitas pessoas, ditas religiosas, costumam falhar e cometer atos e depois botarem a culpa de suas falhas no "tinhoso". Certa vez um pastor foi pego com uma garota de programa na saída de um motel, e, ele, arrependido, disse que a culpa foi do demo que o ficou tentando. Ai é fácil né? Botar toda a culpa no capeta...
    Voltando a esquizofrenia, esse passo seria para pedirmos a Deus para nos ajudar a lidar melhor com a patologia, e claro, devemos fazer a nossa parte, buscando o tratamento e ajuda. 

  
Sétimo passo
"Humildemente rogamos à Ele que nos livrasse de nossas imperfeições"
    Esse passo é bem parecido com o anterior, só que, em vez do caráter, é citada as nossas imperfeições. 
    Para isso, como sempre, temos também que trabalhar e pensar a nossa maneira de ser. Primeiro temos que reconhecer nossas imperfeições e pontos fracos. E, para isso é preciso humildade para sabermos que não somos perfeitos. 
    Muitas pessoas confundem o termo humildade com a questão financeira e a posição social do indivíduo. É muito comum ouvirmos dizer que uma pessoa é humilde pelo fato de ser pobre e ter pouca instrução. Tem muito pobre por ai que faz um sacrifício enorme para comprar uma roupa de marca para sair por ai tirando onda. E tem muito cara rico que é humilde, nem aparentando ter a grana que tem. Humildade para mim é não se achar melhor do que os outros. Quanto a questão espiritual, a minha opinião é a mesma do sexto passo. Tudo bem, temos as nossas crenças, o ser superior tudo pode, mas temos que fazer a nossa parte, para que a cada dia nos tornemos uma pessoa melhor. Mas sem essa de querer ser perfeito, pois, para mim isso já é paranoia. 
    Também acho que o mundo seria um imenso tédio se tudo e todos fossem perfeitos. A vida é um aprendizado, e aprendemos diariamente com os nossos erros e falhas. 


Oitavo passo
"Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a ela causados"
    Na minha humilde opinião, essa é uma questão complicada, pois o sentimento de culpa exagerado, às vezes pode ser um dos componentes da esquizofrenia. Até hoje tenha essa questão mal resolvida em minha vida. Gostaria de reparar alguns erros do passado, mas chego a me perguntar se não estou exagerando no meu sentimento de culpa. Mas,  tendo culpa ou não, é sempre bom conversamos com as pessoas para esclarecer e resolver as pendengas do passado. Sempre ficamos com a alma mais leve quando pedimos desculpas a alguém que tínhamos por acaso prejudicado, mesmo quando não tivemos intenção. Desconfio de pessoas que dizem nunca terem se arrependido de algo que fizeram no passado. Elas são perfeitas? Nunca erraram em suas vidas? 
    Mas se por acaso a pessoa que pedimos desculpas for rancorosa e não nos perdoarmos? Bem, o mais importante foi feito, o pedido de desculpas e o sincero arrependimento. Se a pessoa não quer nos perdoar, isso já é um problema mais dela do que nosso. O principal é termos a consciência tranquila, ao admitirmos que erramos e nos arrependemos. 
    Em relação a esquizofrenia, esse passo serve para analisar se estamos prejudicando alguém ao não admitirmos a patologia e ao não procurarmos ajuda. Familiares, amigos, namorados(as) são as pessoas que mais sofrem quando não aceitamos a nossa condição. Muitos pais de portadores, preocupados com seus filhos, compraram o meu livro com o intuito de conhecer melhor a patologia da mente dividida. Também fazem parte de grupos como a ABRE e outros, a fim de trocar experiências e conhecimentos. 
  
Nono passo
"Fizemos reparação direta dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-la ou a outrem".
    Bem, esse passo, aplicado à esquizofrenia, significa fazermos uma auto análise para decidir se precisamos de tratamento ou não. Devemos analisar se estamos fazendo mal aos nossos parentes e amigos por causa de nosso comportamento. Nem sempre é possível reparar os danos acontecidos em um passado distante, mas uma mudança de atitude juntamente com uma demonstração sincera de arrependimento fazem esquecer muitas coisas que fizemos.

Décimo passo
"Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos 
prontamente".
    Essa é a continuação do nono passo. Mas, como disse anteriormente, não devemos nos ficar culpando pelos erros do passado. O que passou, passou. Creio que alguns portadores já sofrem em demasia com o sentimento de culpa exagerado. Se os nossos pedidos de desculpas não forem aceitos, o melhor a ser feito é esquecermos o fato e tirarmos lições para que o erro não volte a acontecer. 


Décimo primeiro passo
"Procuramos, através da prece e meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma que o concebíamos, rogando apenas o conhecimento de sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade".
    Mais um passo com teor espiritual. Como respeito todas as crenças e também aos que não têm nenhuma crença, fica da parte de cada um o contato com o seu Deus. 

Décimo segundo passo
"Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos a praticar estes princípios em todas as nossas atividades".
    Gostaria de ressaltar que o que estou fazendo é uma adaptação dos doze passos do AA. Alcoolismo é uma coisa, esquizofrenia é outra, se bem que o álcool em exagero pode levar a pessoa a ter alucinações e ser diagnosticada como esquizofrênica.F 19
    O 12º passo pede para que a pessoa transmita o seu aprendizado e sua melhora a outros dependentes. No caso da esquizofrenia, não tenho certeza se isso é bom ou ruim. 
    Por exemplo, se um indivíduo tem uma melhora significativa, talvez não seja benéfico ter  contato mais prolongados com outros portadores que ainda estão sofrendo com a patologia. Espero que não entendam isso como egoísmo. A verdade é que o portador que teve a melhora não se sinta bem ao relembrar os acontecimentos do passado com os outros portadores. 
    É um gesto nobre um esquizofrênico querer compartilhar a sua melhora e tentar ajudar as pessoas que estão passando pelo que ele já passou. Mas tenho dúvidas se isso irá fazer bem ou não. Pode ser desgastante essa tarefa. Acho que isso depende de cada pessoa. No meu caso, tento ajudar as pessoas, através do blog, no facebook, apesar de atualmente estar sem internet e não poder ficar muito tempo em frente de um computador. 
   Bem, depois de ter comentado os doze passos do AA, gostaria de apresentar os doze passos do esquizofrênico. Não tenho a pretensão de criar um manual de como se lidar com a esquizofrenia, são apenas dicas de como lidar melhor com essa patologia. 

Primeiro passo
    "Descobrir se realmente o que temos é esquizofrenia. O diagnóstico, às vezes, pode ser difícil de ser fechado e confundido com outros transtornos da mente."

Segundo passo
    "Depois do diagnóstico temos que aceitar e admitir a patologia. Sem a aceitação, não iremos procurar ajuda e tratamento."

Terceiro passo
    "Estudar e conhecer melhor a esquizofrenia. Conhecendo melhor a patologia, estaremos descobrindo respostas para uma série de questões sobre nossa maneira de ser e agir." 

Quarto passo
    "Acreditar em um poder superior e em nós mesmos. "

Quinto passo
    "Rogar ao poder superior para que lidemos melhor com a patologia, mas também temos que lutar e fazer a nossa parte."

Sexto passo
    "Devemos nos auto conhecer o mais profundamente possível. Sabermos os nossos pontos fracos e falhas é muito importante, para não prejudicarmos os outros e a nós mesmos."

Sétimo passo
    "Evitar o stress, que, em muitos casos pode desencadear um surto psicótico"

Oitavo passo
    "Se "autopoliciar" constantemente, fazendo uma auto análise e verificar se estamos ou não nos distanciando da realidade. "

Nono passo
    "Não desistir do tratamento na primeira vez. Pode ser um pouco difícil encontrar o medicamento e a dose ideal para cada caso. A esquizofrenia não é uma diabetes, por exemplo. "

Décimo passo
    "Se não houver adaptação a nenhum medicamento, analisar se é possível viver e conviver sem os remédios sem prejudicar as pessoas do nosso convívio e a nós mesmos. "

Décimo primeiro passo
    "Depois de estabilizada a patologia, não parar bruscamente com a medicação, pensando que tudo já está resolvido e que os surtos não voltarão. Manter um bom diálogo com o psiquiatra é de fundamental importância, principalmente quando se quer diminuir a dose do medicamentos."

Décimo segundo passo
    "Esse basicamente não é um passo, é um comportamento que devemos seguir desde o princípio, que é o de de não desistir nunca!"