quarta-feira, 31 de julho de 2013

Férias


    Vou tirar férias. De que, eu não sei. Não trabalho, então seria férias de que, de quem? Da agitação da cidade grande, talvez. Essa agitação e confusão que me estressam, e, consequentemente me fazem lembrar que tenho esquizofrenia. Sim, por alguns momentos eu esqueço que tenho essa patologia. Como em uma ensolarada manhã de domingo. Acordei, desmontei minha barraca e fui tomar o café da manhã em um bar da avenida Augusto de Lima, no Barro Preto. Poucas pessoas pelas ruas, apenas algumas senhoras passeando com seus pets pelas ruas do bairro. Estava tranquilo e distraído, como há muito tempo não ficava. Mas, depois do  café, bastou me aproximar domercado central para aquela velha sensação de estar sendo observado tomar conta dos meus pensamentos.
    A tristeza tomou conta de mim e o meu domingo, que parecia ser um bom dia, se tornou cinzento e chato, como um dia qualquer da semana. Como foi bom ficar um tempo sem a companhia da esquizofrenia! Andar pelas ruas, numa boa, sem paranoias... Que saudades de mim mesmo, antes dos surtos. O mundo poderia estar se acabando ao meu lado que, se alguém não me dissesse, eu não iria reparar...
    Ando de cara fechada, só olhando para frente, procurando evitar o máximo possível olhar para as pessoas, o que é bem difícil, ainda mais aqui em Belo Horizonte. As mineiras são muito bonitas, aqui tem tanto em quantidade como em qualidade. Já ouvi dizer que a frase "existem sete mulheres para cada homem", foi criada por que fizeram uma pesquisa na noite da capital mineira, e o resultado foi que nas boates haviam sete mulheres para cada homem.
pessoas famosas provavelmente tem essa sensação de estarem sendo observadas o tempo todo, mas isso é normal e faz parte da realidade.
     Esse meu andar sério é confundido com "mitidez" e geralmente provoca uma certa antipatia nas pessoas. Mas eu não vou fingir que estou bem, não vou ser uma outra pessoa. Esse cara de poucas palavras e muito sério sou eu mesmo. Como já disse em posts anteriores, tive que fingir que estava tudo bem, por causa do meu trabalho. Acredito que muitas pessoas têm que fazer isso, principalmente aquelas que lidam com o público. Eu tentava ser gentil, prestativo e sorridente, enfim, ser uma outra pessoa, tentando esquecer as minhas paranoias. O que aconteceu nessa época é que fiquei com inúmeros personagens em minha mente, um para cada situação. O problema é que no final eu até havia esquecido qual era a minha voz, o tom de falar, etc. Enfim, os personagens tomaram conta de mim. Li em uma revista, há muitos anos atrás, que isso acontecia com um ator de TV, de tanto que ele se dedicava ao seu personagem, em um filme ou novela.
    Hoje não preciso fingir quem sou. Quando estou bem, estou bem, e, quando estou mal, estou mal, tudo muito simples assim.
    Vou sair por ai, tirar férias da cidade grande. Em meio à natureza, esqueço da esquizofrenia e a minha mente se une em total harmonia com a natureza. Recomendo isso a todas as pessoas, esquizofrênicas, bipolares e aquelas que estão aparentemente bem. Férias é fundamental para a saúde mental. Até rimou... rsrsrs   Nada de engarrafamentos, pessoas estressadas, brigas por causa de futebol, nada de filas intermináveis, nada de SUS e, se Deus quiser, nada de remédios para dormir também. Quero chegar no final do dia cansado, mas um cansaço gostoso por ter andado o dia inteiro pelas estradas de Minas Gerais.
    Acho que irei ficar um bom tempo sem postar no blog(umas três semanas). Também preciso de férias do blog, apesar de ser um prazer e tanto escrever. Agradeço a todos os que visitam o blog e gostaria de dizer mais uma vez que vocês me tornam uma pessoa mais feliz.
    Vou fazer o caminho de Sabarabuçu  da estrada real. Depois de percorrer o caminho de Ouro Preto à Paraty, nunca imaginaria que sentiria falta dos marcos dessa estrada. É legal percorrer esses caminhos, com a planilha na mão, parece um jogo em que devemos seguir o caminho correto para ganhar. Esse trecho que irei percorrer tem apenas 160km, mas é muito bonito. Assim que voltar, postareis as fotos dessas minhas andanças. Pretendo fazer os quatro caminhos da estrada real. Um eu já fiz, que é o mais longo(710km), que é o caminho velho até Paraty. Os outros dois farei em breve.

    Tem um cara que conheci no site mochileiros que está fazendo o mesmo que eu, ou seja, percorrendo esses quase dois mil quilômetros de estradas e trilhas reais. Isso fez com que eu sentisse uma pessoa normal rsrsrs Ele se chama Lucio e está com uns setenta anos, não quis falar a idade, mas me disse que termina com "tenta". Se eu chegar a uns 55 anos assim, está de bom tamanho. O importante é caminhar, viver, conhecer novos lugares e pessoas.
    O sol é o fator principal de envelhecimento da pele. Antes eu achava até certo ponto bom não gostar de sair de casa e ficar trancado dentro do quarto o dia inteiro, preservando assim a minha pele. Não envelhecia, mas também não vivia. De que adianta chegar aos 60 anos com a pele conservada por não nos expormos ao sol, se não vivermos a vida? O que eu responderia se alguém me perguntasse:
   - E ai, o que você fez da vida?
   - Qual o segredo para manter a pele jovem?
    - Simples, é só não sair de casa, ficar trancado dentro do quarto. - eu responderia.
    Então, vamos fugir. Fugir de tudo o que nos estressa e nos dar férias. Protetor solar na mão e a fé que não costuma "faiá"!


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Divagações esquizofrenicas


    Já fazem mais de vinte dias( a frase está correta? me corrijam, please, estou na lan house e fica complicado olhar a maneira correta) que estou tentando de parar de tomar o diazepan. Já cheguei a tomar dois por dia, quer dizer, por noite. Voltei a tomar um e agora estou tomando só meio comprimido, à noite. Na época braba dos surtos não saia de casa sem o pan nosso de cada dia. Toda vez que me estressava, botava um na goela abaixo, às vezes sem água mesmo, em plena luz do dia.  Hoje sei que, se continuasse naquele ritmo, em pouco tempo estaria tomando uns cinco por noite para manter o efeito tranquilizante e sedativo.
    Um dos efeitos colaterais desse medicamento que sei que me afeta e muito é a memória recente. Fatos antigos, da infância e da adolescência, parecem estarem preservados em minha mente. Mas vira e mexe esqueço algo que aconteceu no dia anterior, por exemplo. Não tive tantas dificuldades em relação a memória ao escrever o livro Mente Dividida, pois os fatos narrados ocorreram antes que eu começasse a tomar o medicamento. Se soubesse que seria assim, nunca teria botado um comprimido de diazepan em minha boca nessa minha vida. O sono, antes de usar o remédio não era dos melhores, mas, o diazepan, mesmo quando dormimos, não nos proporciona a restauração de um bom sono natural.
    Mas não fiquei "emburrecido" com o remédio.Aos quarenta anos, resolvi fazer um curso de informática, estava me sentindo um extraterrestre por não saber mexer em um PC. Até que me sai bem, tirando boas notas. Tinha receio de entrar no curso e dar vexame, mas aconteceu exatamente o contrário. Em dia de prova, os outros alunos, a maioria na faixa dos vinte anos, procuravam sentar perto de mim, a fim de pegar uma colinha.
    Tenho dificuldades em decorar letras de músicas novas, mas as antigas consigo guardar na memória, inclusive uma em inglês, a "Love of my life", do Queen.
    Esses dias de abstinência foram e estão sendo muito complicados para mim. Parar com o diazepan deve ser algo parecido com a tentativa de um viciado de parar com as drogas(aliás, todo medicamento é uma droga né?).  A diferença é que eu não pedi para ficar viciado no medicamento. Irritação, aquele vira e mexe na hora de dormir são alguns dos incômodos. E eu, como psicótico que sou, tenho que vigiar o tempo inteiro, pois não tomo nenhum medicamento para a esquizofrenia. Já surtei feio uma vez quando parei de tomar o diazepan de uma hora para outra. O medicamento estava em falta no posto de saúde, e a balconista sempre dizia que na "semana que vem" iria chegar. Então, em cerca de três semanas, surtei. Na época não sabia que o medicamento era tão barato. Ganhava por produção no meu trabalho, e, como não estava conseguindo exercer a minha função, a grana estava curta. Foi um surto bem complicado, e nunca mais quero passar por isso. Não foi à toa que tive que apelar para a ignorância quando não consegui nem comprar o remédio quando os médicos estavam de greve, há uns dois meses atrás. A receita estava carimbada e eu teria que me consultar com um psiquiatra particular para conseguir a receita. Ai é demais né?
    O último médico que consultei para pegar o diazepan foi muito atencioso e legal.  Parece ser daquelas pessoas que trabalham pelo prazer de exercer a medicina. Perguntou-me se eu queria consultar com um "meio" psiquiatra para tentar ajudar a resolver as minhas paranoias que ainda persistem em me incomodar. Disse que aceitava só para não ser deselegante. Mas, se um psiquiatra inteiro no SUS já é complicado, imaginem "meio"? Não que o profissional seja ruim, é que a pessoa não tem condições de trabalho e ainda por cima tem que atender um número muito grande de pessoas em um curto espaço de tempo. Só sei que não quero usar mais remédios, por dois motivos:
1- depender do SUS dá mais raiva do que a própria patologia
2- Os inúmeros efeitos colaterais. A bula da fluoxetina, por exemplo, é do tamanho de um livro de história infantil. E, para acabar com os efeitos colaterais desses medicamentos, principalmente os antipsicóticos, os médicos acabam receitando um outro medicamento. É como se fosse uma bola de neve, e o paciente, no final, acaba tomando um coquetel de remédios. Por exemplo, quem toma o haldol, tem que obrigatoriamente tomar o biperideno.

    Quanto eu tomava a sertralina cheguei a ter um efeito colateral bem indesejável: movimentos involuntários das pernas, como se estivesse chutando uma bola de futebol. Isso me dava cada susto! Já pensou se eu chutasse alguém? Jogador de futebol é que não pode tomar. Já pensou  se ele marca um gol contra por causa disso? Imagine a entrevista depois do jogo:
    - É, o time jogou bem, fomos melhores do que o adversário, mas infelizmente eu marquei aquele gol contra, mas foi sem querer, eu tomo sertralina...
    O pior de tudo é que desconto essa ansiedade e irritação na comida. Não tenho problemas com drogas e álcool, mas sempre me empapuço quando estou meio agitado. Há duas semanas atrás até cheguei a vomitar, depois de comer uns três salgados, dois brigadeiros, um pudim e outras cositas mas, junto com uma boa Coca Cola. Tudo piorou quando fiz um suco de uva de Tang super concentrado. Coloquei  todo o conteúdo do envelope em uma garrafinha de 500ml de água mineral. Ficou super enjoativo, mas, nessas situações eu consigo ingerir isso tudo. O resultado foi uma dor de cabeça terrível e muito enjoo, e ai tive que colocar o dedo na goela afora para dar uma aliviada.
    Alguns dias atrás, depois do almoço, comprava algumas frutas para comer de tarde, no lanche. Mas a ansiedade era tão grande que não conseguia esperar. Comia tudo antes da hora e não conseguia fazer absolutamente nada, tinha que esperar um tempo para o estômago dar uma esvaziada, pois o metabolismo não é mais o mesmo de alguns anos atrás.
eu, quando estou ansioso depois do almoço
      Hoje até que estou melhor, acho que a pior fase dessa tentativa de parar com o diazepan já passou. Se não conseguir parar, pelo menos irei continuar nessa dose atual de 5mg por noite.
    O trânsito de Belo Horizonte está um caos, por causa das obras da copa do mundo( a verdade é essa, as obras são para a copa, e não para o povo, se não tivesse copa, o prefeito não teria feito nada). Andar no centro está cada dia mais complicado. Preciso urgente de um pouco de paz e silêncio. Para complicar tudo, o atlético foi campeão da libertadores, e ai o resto vocês sabem. Os atleticanos são muito fanáticos e chatos( todo torcedor do time adversário é chato né? mas os atleticanos são um pouquinho mais...rsrs). Foguetes rolaram direto na noite de quarta para quinta e prosseguiram no dia seguinte também. Fora o buzinaço. Fecharam o principal cruzamento de BH, a avenida Amazonas com Afonso Pena. Muita gritaria. O complicado é depois ver um cara chegando numa UPA e reclamando do atendimento, vestindo a camisa de clube de futebol...

    Diante desse cenário em que está a capital mineira, no início do mês que vem irei começar uma pequena viagem, por alguns municípios de Minas Gerais. É um trecho de 160km, muito bonito, e com muitas cachoeiras e belas paisagens. Já me equipei para dormir no meio do mato, comprando uma boa barraca e um saco de dormir. Porém gostava e muito de montar a barraca nas cidades, perto das pessoas do interior de Minas. Assim que puder, postarei as fotos desta viagem aqui no blog.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Nas ruas: Perrengues


  Nem tudo nessa vida descompromissada de  barraqueiro de rua e nessas minhas andanças por ai são flores. Passei  e ainda passo por algumas situações complicadas, mas, acreditem, estou mais seguro nas ruas de Belo Horizonte do que quando morava em Ipatinga, rodeado por traficantes e paranoicos usuários de crack.
    Certa madrugada fui acordado por três garotos, de aproximadamente quinze anos de idade. Eles "pediram" para abrir a barraca, mas respondi que estava dormindo. Com a negativa, eles começaram a balançar a minha humilde residência, ameaçando botar fogo nela. Procurei manter a calma, sabendo que hoje em dia os menores de idade estão até mais perigosos do que os adultos, por saberem que não irá lhes acontecer nada caso sejam pegos em flagrante cometendo seus delitos.
    Então abri a barraca e sai, cumprimentando pacificamente os três garotos. Um deles, ao me ver, disse:
    -Vamu embora, eu "flagro" esse cara.
    Acho que esse flagro quer dizer manjo, já conheço. Nas ruas fico muito na minha também, procuro evitar o máximo possível confusões e brigas. Belo Horizonte é a capital mais perigosa para moradores de rua. Mas isso não quer dizer que existam por ai grupos de extermínio. A maioria dos incidentes e desinteligências ocorrem entre os próprios moradores, geralmente alcoolizados ou sob o efeito de drogas. Acho que nós(eu me incluo nisso), moradores de rua, temos que nos respeitar mais e parar com essas brigas tolas que só serve para denegrir a nossa imagem. Também conta o fato de Belo Horizonte ter um grande número de moradores de rua, pelo que pude perceber, ao viajar por outras capitais. O povo mineiro é bem acolhedor, e de noite o que não falta são doações, alimentos e uma palavra amiga, de espíritas, católicos e evangélicos, e também de pessoas que não divulgam nenhuma religião.

    Confesso que ultimamente ando estressado com essas confusões da capital mineira. Cada dia é uma manifestação diferente no centro da cidade e em outros locais também. Qualquer coisa agora é motivo para se fechar uma avenida, e o trânsito, que já é ruim, fica um caos.
    Os passeios do centro estão sempre superlotados, e eu, com esse excesso de bagagem, tenho que andar com muita paciência e cuidado para não sair esbarrando nas pessoas. Já estou com saudades de poder andar livremente pelas trilhas e estradas de terra de Minas, respirar aquele ar puro e ouvir o som do silêncio juntamente com o canto dos pássaros. No início do mês que vem estarei percorrendo um trecho de 160km, muito bonito e com muitas cachoeiras, pelo que pude ver em alguns sites. Acho que vai demorar uns quinze dias essa caminhada, vou procurar curtir o máximo cada lugar, não me preocupando muito com o tempo.
      Costumo montar a minha barraca em um local até certo ponto tranquilo, perto do centro. Quando choveu, no mês passado, tive que montá-la debaixo de uma marquise, e dormir perto de alguns usuários de crack. Confesso que fiquei um pouco apreensivo na primeira noite, Cheguei a ouvir um deles perguntar, se referindo a minha pessoa:
    - E ali, não sai nada não?
    - Não. - o outro usuário respondeu.
    Chegaram a perguntar também:
     - E esse cara ai?
     - Ele é gente boa.
     O cara que fez a segunda pergunta a fez em um tom de desconfiança e medo, pelo que pude perceber pelo tom de sua voz. Os usuários de crack também têm medo de dormirem nas ruas. E ainda tudo isso é super dimensionado  pelas paranoias causadas por essa droga tão devastadora.
    Uma usuária, certo dia, chegou perto de mim e começamos a conversar. Ela me disse que tinha mania de perseguição.
    - E você sabe o que te causa isso? - perguntei.
    - Sei.
    - E por que não para?
    - Não consigo. - ela me respondeu, mostrando desânimo.

    Nesses dias de chuva, dormindo ao lado dos usuários, pude perceber que a maioria deles pensam em parar, mas não sabem como fazer isso. Gastam quase todo o dinheiro do "corre"(furtos ou recolhendo material para reciclagem) para sustentarem o vício. Falam em irem à clínicas de recuperação, em Deus, e que um dia irão se libertar do vício.
    Com o tempo, acabei me acostumando com essa situação, e consegui dormir mais ou menos tranquilamente. Mas as ruas não perdoam: um cara que dormia na marquise teve o seu tênis roubado durante a madrugada. Comprei a barraca para viajar e também para dormir com mais tranquilidade nas ruas. Provavelmente já teriam roubado a minha mochila e as coisas que tenho se não estivesse dormindo dentro da barraca.
    Na segunda noite que dormi na marquise, fui acordado por um cara meio alterado. Perguntou se eu fumava e se tinha cigarro(esse é o código para se comprar a droga). Disse que não, é claro, mas o cara ficou ofendido com  a minha resposta, parecendo não acreditar que um morador de rua não usasse crack. O cara era tão chato, tão chato, que, para evitar confusão, acabei dizendo que usava crack, mas que já tinha fumado tudo. Nunca irei experimentar essa droga, que, para mim, é quase um suicídio. E o pior, um lento suicídio. Na minha opinião, o crack é uma droga cara, pois simplesmente rouba a vida da pessoa. Por ter um efeito rápido(apenas alguns segundos) e pelo fato de ser muito viciante, o usuário acaba não se contentando com uma única pedra. O resto da história todo mundo já sabe e sente nas ruas o que é isso.
    Outra madrugada, de dentro de minha barraca, ouvi dois assaltantes abordarem um cara, que acabou conseguindo escapar. Um dos bandidos chegou a pedir para o outro atirar. Claro que fiquei quietinho no meu canto, torcendo para que os ladrões não cismassem com minha barraca.
   Em uma outra madrugada vi um cara roubando parte da fiação elétrica da casa onde monto minha barraca, já que a mesma está para alugar. Cheguei a pensar em acionar a polícia, mas não tinha jeito, o elemento certamente iria ouvir a minha chamada, e o esquizo aqui poderia ficar em sérios apuros. Bem que a polícia poderia ter o serviço 190 por SMS. Em algumas situações perigosas, as pessoas não conseguem ou não podem falar ao telefone. Fica a dica ai, homens da lei.
    Após esses acontecimentos, cheguei a conclusão que, por morar nas ruas, não posso ficar bancando o super herói. Infelizmente tenho que fazer vista grossa para esse tipo de ocorrência. Afinal, a polícia é paga para isso né? Os homens da lei não fazem um bom trabalho de prevenção, fazendo rondas, e, quando acontece alguma tragédia, pedem ajuda para a população. Em Ipatinga cansei de bater de frente com os traficantes, mas os moradores do bairro pareciam nem ligar para aquela bagunça toda. Só faltava os traficantes distribuírem senhas para os crackudos, pois a fila para pegar a droga era grande, tudo isso em plena luz do dia. Certo dia, alguns crentes foram a casa de um traficante para orar. Oras, esses caras vivem graças a desgraça alheia, promovendo o terror na vizinhança, e, quando precisam, pedem a ajuda de Deus? Eu já passei fome em minha vida e outras dificuldades, mas, por mais que precise de dinheiro, nunca conseguiria viver traficando, ao ver as pessoas se acabarem com o que eu vendesse.
    Outro dia aconteceu algo que me deixou em um dilema terrível: por volta da meia noite, sai de minha barraca para me aliviar em uma árvore. De repente passa uma garota correndo, com dois caras em seu percalço. Ela estava com um semblante de medo, e eu, ainda meio zonzo por ter acabado de acordar. Demorou um tempinho até eu me ligar que se tratava de uma tentativa de assalto. Fiquei observando os dois caras, que ficaram meio na dúvida sobre o que fazer ao me verem. Pensei em intervir, pois os meliantes eram magros e não muito altos. Mas logo desisti da ideia, pois os caras poderiam voltar depois para se vingarem de mim e me pegarem dormindo. Decidi então deixar as coisas acontecerem e só intervir se houvesse agressão. Felizmente, a garota foi ligeira e conseguiu chegar ao prédio onde mora. Não sabia que éramos vizinhos. Fiquei feliz, pois, de certa forma, meio que sem querer, intimidei os larápios. Dias depois, ao passar por mim, a garota olhou profundamente em meus olhos, numa forma de agradecimento pelo involuntário gesto heroico.
    Mas nada foi pior do que o dia em que tive o celular roubado. Naquele dia havia participado da manifestação contra os gastos na copa do mundo e outras coisas mais. Acho que andei cerca de uns 30km com todo o peso da mochila, e fiquei em pé das três horas da tarde até as dez da noite. Na hora de dormir simplesmente apaguei. Deixei o rádio do celular ligado, o que atraiu o %¨$!*. E não é que o cara  fez um buraco em minha barraca e pegou o telefone? Eu só me dei conta da situação quando ouvi a palavra "rádio". Talvez tenha até conversado com o ladrão, meio sem querer, por ainda estar meio que dormindo. Nem pensei em correr atrás do vagabundo, até que eu abrisse os quatro zippers da barraca...
    Mas, para falar a verdade, nem me preocupei muito com o aparelho, que já estava nas últimas mesmo, devido as minhas andanças. O ruim mesmo é  sensação de impotência que experimentamos nessas situações. Quanto ao celular, não irá fazer falta, só recebia ligações de cobradores mesmo. E bloqueei o celular na operadora, ou seja, o ladrão agora só vai ter um negócio que toca música e serve como despertador. A única coisa que sentirei falta é do cartão de memória, com as músicas prediletas. Comprei um radinho do Paraguai, por dez reais. Aqui em BH tem algumas boas estações de rádio.
    Nesses perrengues todos, a polícia tinha que estar presente, é claro. Há cerca de quinze dias atrás eles me abordaram, quando eu estava deitado na barraca, para variar. Eram três. À minha direita, uma policial baixinha e bonitinha. À esquerda um policial, não muito alto e magro. Mas, encostado na viatura um outro policial me olhava com uma cara nada amistosa e com uma arma na mão. Fiquei meio desorientado nessa hora, a vontade que eu tinha era de xingar o cara, mandar ele guardar a arma, e de dizer que eu não era bandido. Não iria conseguir pedir isso com educação, e então fiquei meio gago, tentando fazer gestos, não disse nada do que estava pensando em falar, com receio de que o policial interpretasse isso como um desacato a autoridade. Depois de um tempo, o guarda sacou que eu estava meio em pânico e acabou guardando a arma, para o meu alívio. Já me acostumei com os policiais, depois de tanto me abordarem nessas minhas andanças. Mas, com armas eu sinto que não irei me acostumar nunca. Meu coração ficou aos pulos, principalmente por estar parando de tomar o diazepan. Não quero ficar dependendo do SUS para mais nada, foi complicado demais conseguir os comprimidos da última vez. A saúde em BH está um caos. Os psiquiatras deveriam avisar aos pacientes que essa droga é muito viciante, que atrapalha a memória recente e com o tempo acaba sempre perdendo o efeito, obrigando a pessoa a aumentar a dose. Também o aviso de que o medicamento causa dependência deveria ser bem grande nas embalagens, como acontece com o cigarro, mas até que isso não iria adiantar muito, pois, nos postos de saúde  as pessoas recebem os comprimidos sem a embalagem. Só sei que deveria haver alguma consientização por parte do governo em relação a isso. Ou será que eles estão interessados em vender mais e mais medicamentos?
    Os policiais, além das perguntas de praxe(de onde eu vim, para onde eu vou) vieram com algumas perguntas meio tolas, acho que estavam brincando, só pode:
    -Você é terrorista, tem alguma bomba ai?
    - Tem drogas ai com você?(além do radinho do Paraguai, não carrego droga nenhuma comigo)
    Limitei-me apenas a responder as perguntas, mas deu vontade de explicar que, se fosse um terrorista, um traficante ou um outro bandido qualquer, certamente não iria me esconder em uma barraca perto do centro da cidade.
    A policial também chegou a perguntar se havia um motivo especial de montar a barraca naquele local:
    - Sobrevivência apenas. - respondi.
    Mas confesso que deu vontade de falar que adorava brincar de casinha. rsrsrs
    A conversa até que foi amistosa, não tenho do que reclamar, mas é que isso já está se tornando frequente, a policial depois até perguntou por que eu fico tanto tempo dentro da barraca:
    - É que eu sou um cara mais barraqueiro mesmo...- pensei. rsrsrs
    Meu Deus, ilumine a cabeça dos policiais para que procurem os bandidos nos lugares certos, não sei o que eles enxergam assim de tão anormal e potencialmente perigoso em uma simples barraquinha
    Vou dar uma dica: os maiores bandidos costumam usar terno e gravata e o maior crime que praticam é tirarem vidas de pessoas inocentes, ao desviarem verbas do governo que seriam destinadas a saúde e a educação.
    Geralmente podem ser encontrados em suas mansões de luxo, ou andando de jatinho por ai, pois não costumam ficar muito tempo em seus locais de trabalho(câmaras, assembleias, senado, etc). Inclusive pegaram a mania agora de se "darem" férias.
    Mas tudo isso que relatei não foi em tom de reclamação. Eu que decidi morar nas ruas e assumo as minhas decisões. Foi apenas um relato do que acontece nas ruas de uma grande capital. Tem uma vantagem de não se ter nada: as pessoas nunca terão mais inveja de mim. Quando trabalhava, na cidade onde tive os meus surtos, os outros empregados se preocupavam demais com o quanto eu ganhava, até a esposa do dono da firma chegava a brigar comigo, pelo fato dele não dar tanta atenção e dinheiro a ela. E, quando me aposentei, tive a sorte de conseguir o melhor quarto do prédio, e por ser um bom inquilino e também pelo fato do proprietário gostar de minha pessoa, eu pagava um preço menor do que o restante dos moradores. Tudo piorou quando eu pintei e reformei o quarto e comprei móveis. Parecia que o quarto era em um outro local, tamanha a diferença entre o restante do imóvel. Tive que aguentar muita coisa, pessoas fazendo de tudo para me aborrecerem e tirarem minha paciência, a fim de que eu saísse de lá. E também tinha o fato de eu ser um cara não muito ligado as drogas, eles achavam que eu era o caguete, quando a polícia baixava lá. Mas hoje estou bem, mesmo morando nas ruas, estou mais em paz, tirando esses pequenos acontecimentos que relatei. E também posso morar onde quiser agora. Pelo que pude ver, na internet, os lugares que visitarei nessa próxima viagem são bem legais, quem sabe encontro uma cachoeira e possa morar ali direto?
  

terça-feira, 9 de julho de 2013

A esquizofrenia e eu

 
    Muitos pais, namoradas(os), e parentes de pessoas que têm algum grau de esquizofrenia constantemente entram em contato comigo, perguntando-me sobre o que fazer para se livrar desse transtorno que acomete 1% da população mundial.
    Eu juro por Deus que, se soubesse, já teria espalhado esse método para o maior número de pessoas.
    Algumas dessas pessoas, ao verem os meus vídeos, me disseram que sou uma pessoa centrada, calma, como se eu já tivesse resolvido esse problema em minha vida. Não é bem assim, eu sempre gravava os vídeos nos dias em que estava me sentindo bem. Hoje em dia estou estabilizado, mas ainda passo por algumas situações complicadas e chatas por causa dessa patologia.
   

     Uma das principais é a oscilação de humor, que não é exclusividade dos bipolares. Muita gente tem isso, desde os portadores de esquizofrenia e até os ditos normais. Já tenho isso há bastante tempo, e me atrapalha tanto que chego a  evitar de marcar encontros, simplesmente por não saber como vai estar o meu estado de ânimo no dia marcado. Outro dia desses acordei tão alegre que sai cantarolando pela rua, logo de manhãzinha, e até zoei o pessoal do exército quando os vi correndo pelas ruas aqui do bairro onde monto a minha barraca. Estava tão animado que cheguei a me perguntar se havia usado drogas. Como estava de estômago vazio, descartei a ideia de que alguém tivesse colocado alguma droga em algo que eu havia bebido e chego a conclusão de que isso é do meu cérebro maluco.

    Outra coisa que me incomoda são os sintomas negativos, que, como a maioria deve saber, é a apatia, o desânimo, aquela vontade de não fazer nada. Isso muitas vezes é confundido com depressão pelos portadores e com preguiça pelas pessoas próximas.  Aliás, tudo agora é depressão. A pessoa fica triste por ter perdido algum parente, ou por não ter uma vida legal e já chama isso de depressão. Os medicamentos não irão pagar as nossas contas e resolver os nossos problemas financeiros e emocionais, podem ter a certeza disso. Para mim, resumindo, depressão é uma tristeza sem motivo, que tem haver com a química do cérebro. Ai é que entram os antidepressivos, aquele lance de recaptação da serotonina e tals.
    Mas o que mais me incomoda até hoje é a tal da mania de perseguição, até publiquei dois posts para tentar explicar um pouco o que é isso. Incomoda muito chegar em um lugar e se sentir observado pelas pessoas. E isso muita gente tem, desde o grau leve, até o moderado e o mais grave. Evito o máximo de ir a lugares cheios de gente. Uma das situações que evito é ir em shows, coisa que adorava fazer, antes dos surtos. Gostava tanto de shows que até acabei trabalhando nessa área, como operador de som.
    E o que faço para lidar melhor com esse transtorno, que ainda não tem cura?
    O primeiro passo é reconhecer que temos a patologia. Se não fizermos isso, como podemos buscar ajuda e tratamento para algo que pensamos não ter? Eu tirei esse ensinamento dos doze passos dos alcoólicos anônimos, quando estava morando nas ruas, depois de um surto psicótico. Fui levado para um centro de recuperação para alcoólicos e viciados em drogas. Eu não tenho esse problema de vícios, mas uma assistente social me disse que poderia me ajudar com o auxílio doença, que o proprietário da clínica tinha "a manha" de aposentar pessoas e tals. Lá fiquei conhecendo esse primeiro passo, que acho que vale para muitas situações de nossas vidas, esquizofrênicos ou não. Claro que não fiquei nessa clínica por muito tempo, pois na verdade o cara queria me interditar e ficar com minha aposentadoria pelo resto de minha vida. Mas levei esse ensinamento e o uso em muitas situações. Temos que reconhecer que possuímos essa patologia. É difícil, mas também não é o fim do mundo.
    O segundo item que me ajuda a lidar com a esquizofrenia é a própria experiência com a patologia. Se no primeiro surto eu cometi atos extremos, como pedir demissão do serviço, andar pelas BR's fugindo dos inimigos que estavam só em minha mente, até chegar a tentativa do auto extermínio, no segundo surto fiquei mais quieto, mas não menos assustado. Um exemplo que gosto de citar é o John Nash, que parou de tomar os remédios aos 42 anos de idade. Ele arrumou um jeito de conviver com a esquizofrenia. Um dos fatores que o ajudaram a descobrir que suas "alucinações eram alucinações" foi o fato de perceber que a garota que sempre aparecia para ele não envelhecia com o tempo.


     Juntamente com a experiência, a informação é um grande aliado. A internet está ai para todos, e o que não falta são bons sites sobre o assunto. A troca de experiência com outras pessoas que têm a patologia pode ser muito positiva também. O fato de sabermos que não somos o único a ter esse transtorno nos tira a impressão de que a esquizofrenia seja um castigo de Deus. No facebook existe um grupo chamado esquizofrenia que é mais voltado para os portadores do que para os profissionais da área de saúde mental, vale a pena entrar e fazer novas amizades. Conhecer a esquizofrenia é como conhecer os pontos fortes de um adversário em uma partida de futebol. Ficamos mais preparados para enfrentá-lo e assim podemos anular com mais facilidade seus pontos fortes, aumentando assim a chance de vencê-lo.
    Um outro fator que ajuda a lidar melhor com a esquizofrenia é a maturidade. Isso ai já varia muito de pessoa para pessoa. Alguns amadurecem mais cedo, outros demoram um pouquinho mais, enquanto outras pessoas parecem que param no tempo e não evoluem nunca. A maturidade faz com que pensamos mais antes de agir e cometermos uma bobagem, e isso vale também para qualquer pessoa.
    E, por último, algo que também vale para todos é conhecer a si próprio. O auto conhecimento ajuda as pessoas que têm esquizofrenia a evitar situações de stress, o que é de fundamental importância para se evitar um surto psicótico. Eu, por exemplo, na medida do possível, evito multidões, sons altos, pessoas que passam sentimentos negativos, como agressividade, vingança, etc.

    Conhecendo a nós mesmos, sabemos os nossos pontos fracos e assim podemos tentar nos fortalecer nessas áreas. Um dos meus pontos fracos era me preocupar em demasia  com a opinião alheia. O que as pessoas pensavam de mim era muito importante. E o que acontecia quando encontrava pelo caminho pessoas que não queriam o meu bem? Tentavam me desestabilizar quando sabiam do meu ponto fraco. Faziam comentários ao meu respeito, perto de mim, só para que eu ouvisse também. Por exemplo: Chegaram a comentar que eu estava com aids, e esse boato se espalhou rapidamente em uma pequena cidade onde trabalhava na época do meu primeiro surto. E é aquele velho ditado: uma mentira dita muitas vezes acaba virando verdade. Acabei enlouquecendo com tantos comentários e surtei, chegando ao ponto de não acreditar nos exames de HIV que davam negativo no teste.
    Hoje em dia, quase não encontro pessoas que querem o meu mal, estou fora do mercado de trabalho e procuro ficar sempre na minha. Mas, quando ouço um comentário maldoso a meu respeito, nem dou bola. Aprendi na prática que a língua é a pior das armas, é o chicote do povo, é a arma dos fracos e maldosos, pois é fácil de usar e pode causar enormes estragos na vida de uma pessoa.
    A última dica que dou para quem têm esquizofrenia é encontrar um sentido para a vida. Faça algo que goste, carregue uma bandeira (não no sentido literal né?), entre para um grupo, uma ONG, uma associação qualquer. Não é possível que não exista nada nesse mundo que não nos interesse. Faça alguma atividade, ocupar a mente é a melhor forma de esquecermos da esquizofrenia.
    Em relação aos medicamentos, isso vai de cada pessoa, não gosto de ficar opinando sobre isso, Eu não uso, John Nash não usa, parou de tomar aos 42 anos. Conheço algumas pessoas que se dão bem usando medicamentos, mas isso depende de um bom profissional e de tempo($). Ou seja, se a pessoa se conhece bem, ela saberá se pode ou não ficar sem os medicamentos.
    Por hoje é isso pessoal, espero que tenham gostado do post e que tenha ajudado em alguma coisa.

 -0bs: já me recuperei e já estou pronto para mais uma viagem, mas primeiro vou me equipar melhor contra o frio e contra a chuva, comprando um saco de dormir e uma nova barraca, assim poderei acampar no meio do mato, se bem que o grande barato das viagens foi o contato com as pessoas simples do interior de Minas Gerais. Confesso que no primeiro dia em Belo Horizonte eu vi um  marco da estrada real em pleno centro da cidade.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Estrada Real: Último dia


30 de maio de 2013-quinta feira
Cunha-Paraty

    Tive uma ótima noite de sono na rodoviária de Cunha. Não fez o frio que eu estava esperando. O site da FIEMG diz que, em Cunha, a temperatura costuma variar entre 3°C à 14°C no inverno. Caprichei no papelão, e o frio foi legal para dormir, não foi preciso me encolher para espantar o frio. 
    Dormi cedo, por volta das sete horas da noite já havia tomado o meu remedinho para dormir. Às três horas da madruga já estava acordado, dava para ouvir o toque do sino da igreja, que tocava de hora em hora, que, convenhamos, é o ideal. Até hoje não consegui entender por que o sino da igreja de São João Del Rei tem que tocar de quinze em quinze minutos. Nem o google explica!
    Começa a cair uma forte chuva de madrugada. Eu, que já estava decidido a ir para Paraty de qualquer maneira, começo a ficar em dúvidas novamente. É complicado começar a caminhada debaixo de chuva e logo assim de manhãzinha.
saída de Cunha
     A minha parte racional tenta me convencer que o melhor que tenho a fazer é pegar um ônibus e chegar confortavelmente à Paraty. O argumento é de que não irei ganhar nada ao cruzar o último marco da estrada real. Mas, a sensação era de que o meu cérebro estivesse dividido ao meio, pois a parte das emoções me diz que seria covardia(um bundão mesmo) se eu não chegasse à Paraty do jeito que eu havia começado, ou seja, caminhando, por causa de uma simples chuvinha. Não teria graça nenhuma chegar a Paraty de ônibus. Não ia lá fazer turismo, o meu barato era a caminhada mesmo, o trajeto. 
    A minha relação com as chuvas, depois da esquizofrenia não tem sido das melhores. Eu penso que é um castigo do céu, sei lá. 
    Essa chuva de madrugada me fez lembrar do meu primeiro surto, em que fiquei escondido no meio do mato por uns sete dias. Estava fugindo dos inimigos, que só estavam em minha mente. Era janeiro, mês de muita chuva em BH, e só estava de calça e camiseta. Até hoje não sei explicar como aguentei ficar naquele lugar por tanto tempo, apenas tomando água.
    O restante da madrugada passei nesse dilema, pensando no que fazer, nesse duelo entre as partes emocional e racional de minha mente.
     Já quase de manhãzinha, nesse conflito interior, a minha parte emocional acabou me convencendo de que o melhor a ser feito seria percorrer o restante do caminho a pé mesmo, independente das condições do tempo. Como já disse no poste anterior, eu nunca iria me perdoar se fosse de ônibus. Eu me conheço o suficiente para saber que essa desistência ficaria para sempre martelando minhas ideias.
    Pensei também em todos vocês, leitores do blog. Essa história merecia um final melhor do que um simples passeio de ônibus né? Já pensou, depois de 600km de caminhada e no final postar: peguei um busão e finalmente cheguei em  Paraty?
   Então, às sete horas da manhã já estava na loja de materias de construção, para comprar lona, a fim de proteger a minha barraca em caso de uma chuva no meio da noite. Como serão 57km de estrada de terra e asfalto, planejo parar perto do quilômetro trinta para dormir. O vendedor da barraca foi sincero na hora da venda, ao dizer que ela só aguentava chuviscos mesmo. Quer dizer, sincero até que ele foi, mas na verdade ele queria que eu comprasse uma mais cara. Vendedor só é sincero nessas ocasiões. E, como sou um M.O.A,(mochileiro de orçamento apertado), comprei a barraca mais baratinha mesmo, e agora tenho que me virar quando chove.
   Depois vou ao supermercado e compro sacos de lixo de cem litros. Pego uma tesoura emprestada, e faço três aberturas em um saco de lixo, para passar a minha cabeça e os braços. Ficou perfeito, até parecia que foi feito sob medida. Melhor, só uma capa de chuva mesmo. Não estava chovendo, mas já deixo a mochila e o colchonete protegidos com os sacos de lixo, em caso de uma eventual chuva. Estava pronto para o que der e vier!

    Logo no ínicio da caminhada descubro que o maior problema não seria a chuva, e sim a serra. Teria que subir até os 1450 metros de altitude na divisa dos estados do Rio e de São Paulo.
    Na saída de Cunha tem uma bifurarcação e, como não havia nenhum marco, pergunto a um morador da cidade o caminho da estrada real até Paraty. O cara, sem demonstrar dúvidas, me informa que era só seguir em frente. Depois de andar cerca de 2km sem avistar os marcos, começo a ficar desconfiado de que poderia estar seguindo o caminho errado, que é somente de asfalto. Por volta do quilômetro cinco, passo a ter certeza. Fico furioso, e falo um monte de palavrões. Tinha tomado dois generosos copos de café e comido um biscoito recheado(de Nescau) e mais uma barra de chocolate(suflair) logo de manhã. Estava elétrico, era como se fosse um dopping. Aliás, foi um dopping, legal, dentro da lei e tudo, mas foi um dopping.
    Queria chegar a Paraty seguindo os marcos da estrada real, e não pelo asfalto. Estava decepcionado, não tinha como voltar a Cunha e começar tudo de novo. Essa raiva, misturada com os efeitos do café com o chocolate, fizeram com que eu subisse a serra numa velocidade incrível, até encontrar uma lanchonete e pedir informações sobre o caminho.

    A proprietária foi muito atenciosa comigo. Me deu todas as informações que eu precisava, o que me deixou mais aliviado. Ela me explicou que, seguindo em frente, iria encontrar novamente os marcos da estrada real e que chegaria à Paraty conforme a planilha explica. O que aconteceu é que, na saída de Cunha, eu peguei o caminho errado, seguindo as orientações do bendito morador da cidade, que nem devia saber o que é a estrada real. Ele disse para seguir o asfalto para Paraty, fazendo com que eu perdesse cerca de uns 20km de estrada real. . Se seguisse todos os marcos da planilha, teria que percorrer ao todo, 57km. Pelo asfalto são apenas 44km.
   Mas só o fato de chegar à Paraty em meio a natureza já me deixa mais aliviado e a raiva vai embora. Então mudo os meus planos e penso em chegar ao final hoje mesmo, imprimindo um ritmo mais forte. Acho que chegarei ao último marco de noite, se andar sem parar muito para descansar. O risco é que escureça na descida da serra da Bocaina,  que não tem iluminação nenhuma. É uma área de preservação ambiental, e é proibido as intervenções do homem.
    Continuo então subindo a serra, em boa velocidade. A dor na canela esquerda havia sumido há algum tempo, graças aos dias em que fiquei parado, por causa da chuva. Quando paro para fotografar uma paisagem, ouço alguém me chamar:
    - Ô mineirão!
    Olho para trás e vejo o paulista que estava no albergue em Aparecida do Norte. Ele vinha caminhando desde a cidade da padroeira, e debaixo de chuva. O engraçado é que ele apareceu assim do nada, em uma curva. Era para ele ter me visto em uma reta. Seguimos o caminho conversando, o que é bem legal, ajuda um pouco a distrair a mente e parece que cansamos menos.
    Logo encontramos um restaurante. Segundo a planilha, era o único que havia pelo caminho, não tinha como escolher. Restaurante de grã-fino, carros luxuosos no estacionamento. Comida cara, o prato mais simples saia por quinze reais, e pedi então dois, um para mim e outro para o paulista, que estava sem grana.
    O rango estava demorando a sair, tive que ir duas vezes na entrada da cozinha para apressar o chef. Disse-lhe que precisava caminhar para sair da serra da Bocaina antes de escurecer. A atendente disse que a demora era por que tudo era feito na hora.
   O céu já estava começando a dar indícios de que poderia chover. Já estava quase perdendo a paciência, quando, depois de uma hora, o rango chegou: uma pequena porção de arroz, um filé de frango, e alguns legumes. Tudo montadinho, bonititnho, tinha até uma flor em cima do arroz. Apesar da fome, não ataquei a comida, esperando o feijão e o macarrão ou batatas fritas. Como o restante do almoço demorava a chegar, fui até o balcão reclamar e a atendente disse que a refeição que eu havia pedido era só aquilo que estava no prato mesmo. Fiquei pé da vida! Quinze reais por um pouquinho de arroz, com um filé de frango e um pouco de legumes e uma flor? Não fui grosseiro, mas deselegante, estava nervoso, ainda era o efeito do café com chocolate que havia tomado no café da manhã. Disse para ela que estava caminhando e que não tinha carro, e que não precisava de comer flor e sim feijão e carboidratos e de outros nutrientes.  O paulista ficou meio sem graça e resolvi dar uma maneirada nas reclamações. Tive que pagar mais dez reais por uma porção de feijão. Ainda bem que um leitor do blog comprou um livro e depositou uma quantia generosa na minha conta, muito maior do que o valor pedido. Valeu pela ajuda cara, essa grana ajudou muito nesse final de viagem, que é um pouco desgastante, e, sem um feijão, as coisas iriam ficar mais difíceis.
    Depois do rango, sem descanso, continuamos a subir a serra. Até me surpreendi com a minha resistência, já que o paulista, sete anos menos velho do que eu,  teve que parar algumas vezes para dar uma respirada. E olha que ele carregava apenas algumas roupas na pequena mochila, e eu tinha que carregar dez quilos nas costas. Chegamos a divisa dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro por volta das duas horas da tarde. O tempo não poderia ser melhor: nublado, mas sem chuvas.

    A descida da serra para Paraty é bem acentuada, e exige muito das articulações, principalmente do joelho. A musculatura também é muito exigida, temos que descer meio que freando, para não sairmos rolando, pois o terreno é cheio de buracos e pedras escorregadias. Não tem essa de que para descer todo santo ajuda.
    Meus pés começaram a doer um pouco, mas combinamos de não parar para descansar, pois poderíamos correr o risco de ficarmos na serra quando escurecesse. Havia muita neblina, e não deu para tirar muitas fotos. O trecho é um pouco complicado para carros sem tração 4x4, mas, por causa do feriado prolongado, muitas pessoas desciam a serra com seus carros comuns de passeio.
    Por volta das cinco horas da tarde chegamos ao fim da serra, para o nosso alívio. Um hippie estava tranquilamente sentado em uma pedra, com seus cachorros. Nos ofereceu algumas bananas, havia vários pés dessa fruta na região. Parecia que ele morava na serra, no maior sossego, longe da confusão das grandes cidades.
    Apesar do cansaço e de algumas dores, continuamos o caminho sem parar. É a ansiedade do fim do caminho, parece que conseguimos uma energia extra na reta final. Algo semelhante ocorreu no caminho do padre Anchieta.
    O restante do caminho até o litoral é em retas. Esse sobe e desce da serra foi bem puxado, estava até surpreso por ter conseguido andar os 44km. Claro que o tempo ajudou e muito, se o sol estivesse forte, não sei se chegaríamos a tempo. Mas, no final, estava caminhando somente nas ruas, já que estava até difícil de levantar as pernas para subir nas calçadas.
último marco final

    Com muito esforço e luta, chegamos ao último marco da estrada real exatamente às 18:56m. Era véspera de feriado, e os barzinhos estavam lotados de turistas. Não estava exausto, apenas cansado e com os pés doendo. Como no caminho do padre Anchieta, não tive vontade de sair gritando e pulando de alegria. Essa caminhada, para mim, não é um desafio, como escalar o monte Everest, é mais uma curtição mesmo, como já havia dito em posts anteriores, sendo que a parte mais legal é o próprio caminho, e não a chegada ao destino propriamente dito.
    Sentei no passeio e o filme da viagem começou a se passar em minha cabeça. O início, em Ouro Preto, as dificuldades do caminho, as pessoas que conheci, as paisagens...
    Foi um pouco sofrido, só dormindo em minha barraca, mas valeu a pena, e muito. As dificuldades, como os dias quentes, as noites frias, as dores, não foram chegaram nem perto da parte positiva do caminho, que é o contato com a natureza, com as pessoas simples e hospitaleiras do interior de Minas Gerais.
    Agradeço a Deus por estar comigo no caminho, do início até o fim. Não sou louco e nem corajoso demais, apenas acredito em meu anjo da guarda, enviado por Deus, e, que até hoje, não pediu aposentadoria por receber a missão de proteger o maluquinho aqui.
    Agradeço também a todas as pessoas que me ajudaram pelo caminho, e também aos leitores do blog, é claro. Vocês fizeram com que eu me sentisse uma pessoa melhor, e foram de fundamental importância, principalmente durante as chuvas, quando pensei em desistir.


    Na madrugada em Cunha, prometi a Deus que colocaria essa música do Casting Crowns no post, caso não chovesse no último dia de caminhada. A tenho no meu celular e, apesar de não ser evangélico, a curto muito. Gosto de boa música, independente de religião, credo, raça, etc.



Voz da Verdade

Oh, o que eu faria para ter
O tipo de Fé necessária
Para sair desse barco que estou?
De encontro às ondas

Dar um passo para fora da minha zona de conforto
Para dentro do mundo desconhecido onde Jesus está
E Ele esta estendendo sua mão

Mas as ondas estão gritando meu nome
E rindo de mim
Lembrando-me de todas as vezes
Que eu tentei antes e falhei
As ondas continuam dizendo-me
Repetidamente: "Menino, você nunca vencerá",
"Você nunca vencerá".

Refrão:
Mas a voz da verdade me conta uma diferente história
A Voz da Verdade diz: "Não tenha medo"
E a Voz da Verdade diz: "Isto é para minha Glória"
De todas as vozes que me falam
Eu escolherei obedecer e acreditar na Voz da Verdade

Oh, que eu farei para ter
O tipo de força necessária para sustentar-me diante de um gigante
Com apenas um estilingue e uma pedra
Cercado pelo som de mil soldados
Sacudindo suas armaduras
Desejando que eles tivessem a força para agüentar firme

Mas o gigante grita meu nome
E ri de mim
Lembrando-me de todas as vezes
Que eu tentei antes e falhei
Os gigantes continuam dizendo-me
Repetidamente: "Menino, você nunca vencerá",
"Você nunca vencerá".

Mas a pedra era exatamente do tamanho certo
Para colocar o gigante do chão
E as ondas elas não parecem tão altas
Olhando de cima delas para baixo
Vou voar com asas de Águia
Quando eu parar e escutar o som da voz de Jesus
Chamando-me

Eu escolherei escutar e acreditar na Voz da Verdade



   Não sei bem o que fazer da vida neste momento. Acho que o melhor que tenho a fazer é "deixar a vida me levar", como nos ensina a música do Zeca Pagodinho, que gosto tanto de cantar, quando estou sozinho, é claro, ninguém pecou tanto no mundo para ouvir a minha desafinação. Talvez eu fique andando por ai, nas minhas andanças, como o personagem Zé Araújo, do filme O homem que desafiou o diabo, que andava pelo sertão nordestino, a procura de uma cidade onde as montanhas são feitas de rapadura e os rios de leite. Como bom mineiro que sou, a minha terra dos sonhos tem montanhas de broa de fubá e pão de queijo dá em abundância nas árvores. As vacas têm uma delícia diferente em cada teta: em uma sai leite, em outra café com leite, em outra yakult, e em outra, doce de leite purinho. As goiabas não tem semente, e não existem manifestações, simplesmente por não haver motivo por qual protestar.