quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Natal bipolar


     ♫ Chove lá fora 
         e aqui tá tanto frio 

     Esse trecho da música do Lobão reflete bem o meu momento atual. O céu e os meus dias estão cinzentos. É que a DPN (depressão pré natal) chegou mais cedo esse ano. Ainda não vi nenhuma decoração natalina, as lojas ainda não estão com as famosas "promoções" de natal( promoção nada, no mês de Janeiro tudo fica mais barato, os vendedores só faltam agarrar a gente pelo braço). Na TV ainda não está passando nada referente à esta data, ainda não estou ouvindo pelas ruas aquelas tradicionais musiquinhas de natal tocadas na arpa paraguaia, mas já estou nesse estado lastimável. E, para avacalhar tudo, ao invés de ouvir uma música alegre, estou no momento ouvindo músicas tristes. Vou deixar para experimentar a sertralina no mês de Janeiro, pois sei que nenhum medicamento no mundo seria capaz de tirar essa apatia e desânimo que tomam conta de mim neste mês, que, para o meu caso, deveria se chamar "deprêmbro".
    Coincidência ou não, dia 19 fez onze anos que tive o meu primeiro surto. Claro que o surto não ocorreu exatamente nesta data, me baseio nela pois foi o dia em que foi dado baixa em minha carteira de trabalho. O surto é como uma bola de neve, vai crescendo aos poucos, e, se você não se cuidar,  pira mesmo pra valer. Não estava mais aguentando trabalhar, a mania de perseguição era enorme, e estava ouvindo muitas vozes. Havia tantos inimigos em minha mente, que achei que era mais fácil me auto exterminar do que ficar brigando com tanta gente. Não sou agressivo e nem fui, mesmo na fase aguda do surto, e até hoje me pergunto como aguentei tudo aquilo calado. A minha única reação foi fugir, fugir e fugir até o momento em que minhas energias acabaram. Bem, não vou aqui ficar relembrando essas coisas, pois já escrevi tudo sobre isso no livro.
    Sei que não sou o único a me sentir assim durante o período natalino. Sei que as taxas de auto extermínio aumentam um pouco nessa época, pelo menos é o que vi em uma revista há alguns anos atrás. Mas por que será?
  "Ah! Mas isso é falta de Deus!" Dirão alguns cristãos mal informados, que pensam que Jesus nasceu realmente no dia 25 de dezembro. Já me disseram isso uma vez, e foram duas pessoas que certamente não dão nem parabéns para o suposto aniversariante, se preocupando apenas com os presentes que irão receber e também se a mesa da ceia de natal está farta ou não. Não tem como ficar indiferente ao natal, ou as pessoas gostam muito ou então ficam deprimidas. Creio que isso tem um pouco a haver com esse lance da família, se ela é unida ou não, etc. Também existem as pessoas que vivem só e associam o natal a uma reunião de familiares, e então não tem como não ficar triste nesta data. Sem contar o apelo comercial que é nos imposto nessa época, deixando as pessoas que não receberam presentes um pouco tristes, principalmente as crianças que pensam que não foram boazinhas o suficiente para ganhar o presente de papai noel ou que, se não acreditam no bom velhinho, ainda não entendem por que existe tanta desigualdade no mundo.
    Mas eu não sou contra o natal. Eu não gosto, é bem diferente. Não vejo nada demais as pessoas marcarem no calendário uma época para se confraternizarem, trocarem presentes e fazerem inúmeras festas. Acho legal essas tradições, a alegria das crianças ao receberem os seus presentes, a alegria dos adultos, mesmo que induzidas por uma data criada pela igreja.
   Acho que todos tem uma noção de como surgiu o natal, o meu blog não tem uma função didática, o google está ai para todos e não sou muito adepto do control V + control C, mas vou aqui falar um pouco o que sei sobre o surgimento dessa data para os cristãos.
    O natal é uma adaptação da igreja a festas pagãs que ocorriam antes do nascimento de Jesus Cristo. Alguns povos celebravam o deus sol, e alguns países festejavam vários outros deuses. Era uma tradição bem forte em várias partes do mundo, inclusive em Roma. Aos poucos o cristianismo foi crescendo em Roma, e, para não afrontar os costumes do povo, foi criado o natal.  Apesar de não se ter nenhum registro da data de nascimento de Jesus, a igreja decretou que esse dia seria o do nascimento do Cristo, por volta do ano 337 dc.
   Vários costumes das festas pagãs foram incorporadas ao natal dos cristãos. A troca de presentes, a ceia de natal, as festas com muita comida e bebida, as decorações, etc. Para dar um toque cristão ao natal, foi incorporada a figura do papai noel. Muitos devem estar estranhando a figura de um homem magrelo ao lado, mas este é o verdadeiro bom velhino. O nome dele é São Nicolau, e foi um bispo ou monge que acabou sendo canonizado e virou um santo. Em vida, ele ficou conhecido pela sua generosidade, principalmente com os mais pobres. Ele tinha o costume de distribuir presentes para as crianças mais humildes, e estas, com o tempo, começaram a pensar que só seriam presenteadas se fossem boazinhas e bem comportadas. Com o tempo, a figura do papai noel foi mudando, e hoje ele é um velhinho de barba branca e gordinho. Acho que foram os artistas e pintores que moldaram essa nova imagem de papai noel. E a coca-cola deu uma boa forcinha ao usar a nova figura do bom velhinho em seus comerciais. Acho que o mesmo deve ter ocorrido com a imagem de Jesus Cristo. Ninguém sabe como era Jesus Cristo, se ele era alto ou baixo, gordo ou magro, se tinha cabelo ruim ou bom, etc. Pelo pouco que sei, Jesus, não é essa figura que vemos nas igrejas, um cara branco, de olhos azuis e cabelos longos. Acho que os pintores resolveram dar um toque de singeleza à figura de Jesus, e assim como aconteceu com o papai noel, a ideia pegou e hoje fica difícil não se lembrar da imagem ao ouvir o nome de Jesus. O mesmo se pode dizer de Maria, que também é alva e de olhos azuis.
    Deixando os fatos históricos de lado, como disse anteriormente, acho legal se criar uma data para confraternizações e festividades, só não acho certo inventarem uma data de nascimento para Jesus Cristo, que foi uma forma que a igreja encontrou para adaptar sua festa as tradições dos povos antigos. Não é por que eu não me dou bem no natal é que vou ficar por ai condenando a festa. Se outras culturas e povos tinham e ainda têm esse costume, por que os cristãos não podem ter? Mas poderiam deixar Cristo de lado e dizerem a verdade, ou seja, não existe registo sobre a verdadeira data de nascimento de Jesus.
    Para falar a verdade, não sou muito ligado a datas. Não condiciono o meu estado de espírito ao calendário. O que me deixa feliz ou triste são os fatos e os acontecimentos do dia a dia. E as pessoas também né? Sem contar que existem períodos em que fico muito alegre sem motivo aparente, e o inverso também acontece. Ai me vem a questão: a alegria e as emoções também tem um componente biológico, que tenha a haver com a química e o bom ou mau funcionamento do cérebro?
    Acho que devemos nos olhar como um todo, não somos só carne e osso, devemos entrar ai com a questão espiritual também. Não estou aqui falando de uma religião específica ou de uma seita, mas falo de acreditar e ter fé em algo que te faça sentir bem.
    Voltando as datas, outra que não gosto muito é a do meu próprio aniversário. E isso vem desde pequeno. Me lembro de uma remota cena de um aniversário, acho que de seis anos, em que me vejo na mesa em frente ao bolo, mas eu não estava feliz. O motivo sinceramente eu não sei. Só me lembro que estava desconfortável naquele momento. Acho que esse foi o último aniversário em que fizeram festa para mim. Acho que os meus familiares ficaram meio sem graça diante dos convidados naquele dia, também o aniversariante estava com uma cara fechada né? rsrsrsrs
    Até hoje não ligo para o meu aniversário, e, para falar a verdade, houve um ano em que simplesmente esqueci que estava fazendo aniversário, só me lembrei da data dias depois. Aniversário para mim significa estar um ano mais velho e, para me auto enganar e não ficar muito deprê nesta data, encontrei um método infalível para que isso não ocorra. Eu adianto a minha idade em um ano, por exemplo: hoje tenho 43 anos, mas boto em minha cabeça e saio falando para todo mundo que tenho 44. Com o tempo eu me acostumo com a ideia de estar um ano mais velho e acabo acreditando nisso. Então, quando chegar a data do meu aniversário, eu vou pensar que vou fazer 45 anos, mas, após refletir um pouco, irei lembrar que na verdade estarei fazendo 44, ou seja, fiquei uma ano mais novo em pleno aniversário! Não é o ideal, mas até funciona.
   Na época em que eu trabalhava, datas festivas eram sinônimo de trabalho, pois era operador de som. E, como gostava do que fazia, não era um martírio passar os feriados e datas festivas trabalhando. Até pelo contrário, ficava muito triste no mês de Janeiro, época de muita chuva e pouco serviço. Quinze dias era mais do que suficiente para as minhas férias.
   Hoje em dia, aposentado, não vejo muita diferença entre os dias, que, para mim são todos iguais. Só não gosto muito daqueles feriados em que tudo está fechado e ai tenho que providenciar um rango, pois não sei fazer nem ovo frito. Ovo cozido até que eu sei fazer.
   Bem, me desculpem se o post dessa semana foi meio deprê. Mas é o que estou sentindo no momento e não tem como disfarçar. Comecei a escrever o post ontem(28/11) mas nem terminei, de tão desanimado que estava. Hoje estou melhor e sei que tudo isso é uma questão de tempo e que tudo vai passar, até que o próximo natal volte juntamente com a DPN.


 
 -obs: as músicas não estão disponíveis no lado direito do blog, mas creio que o site que fornece as músicas deva estar com problemas.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Manias, que não as tem?


    Outro dia desse estava conversando com um amigo do grupo esquizofrenia, no facebook. Esta conversa me fez refletir sobre diversas situações, denominações e classificações que nos são impostas no dia a dia. Revejam o diálogo:
- Ele: Eu acho que tenho esquizofrenia. 
- Eu: Mas o que você tem? Mania de perseguição? Alucinações? Vozes de comando?
- Ele: Não, não tenho nada disso. É que tenho algumas manias, como contar quantas vezes bato o cigarro no cinzeiro, conto os degraus, os passos, etc. 
- Eu: Ah cara! Se é por causa dessas manias, então você pode se considerar o cara mais normal do mundo. Ficaria espantado se você me dissesse que não tivesse nenhuma mania ou esquisitice. 
    E a conversa durou um bom tempo. Falamos sobre remédios, surtos, as expectativas de cura para os transtornos mentais, etc. Papo de psicótico mesmo. Me lembrei do filme "O alienista", que é baseado no livro  de Machado de Assis. Se todo mundo que tiver uma mania for considerada louca, então a humanidade está completamente pirada. Mas, se a maioria tem manias, então o normal é ser louco. Então chego a conclusão, assim como o protagonista do filme, de que, se a exceção é ser normal, o verdadeiro louco é aquele que não tem manias. 
    Falei para o meu amigo para ter uma boa conversa com o psiquiatra e repensar se realmente é preciso de tomar os neurolépticos
    Se contar os passos é maluquice, então o que são essas esquisitices desses famosos:

- Angelina Jolie
-Um amigo de Angelina Jolie revelou, ao site "In Touch", algumas esquisitices da musa hollywoodiana. De acordo com a fonte, Angie tem o costume de guardar curativos usados.
"Quando os filhos de Angelina se cortam ou se arranham, ela guarda os curativos usados em um pote de vidro grande. Ela acha que está sendo artística, mas para outros, ela é apenas estranha", revelou.
O informante diz, ainda, que Angelina se tranca por quatro horas no porão, todos os dias, para se exercitar. Isso seria uma forma de fugir da família por um tempo. "Ninguém pode atrapalhá-la durante esse período", disse.
-No mesmo ano do suspense conhecia nos sets de ''Alto Controle'', comédia com John Cusack, seu futuro marido, Billy Bob Thornton, 20 anos mais velho. O casal vive nas páginas de fofocas da mídia, devido a esquisitices como usarem o sangue um do outro pendurado em um frasco no pescoço.

- Woody Allen
- O brilhante cineasta sabe a falta que fará o dia em que abandonar o mundo dos mortais. Acontece que o medo de Woody ultrapassa um pouco os limites normais. A cada 30 minutos ele checa a temperatura e faz questão de checar que está tudo bem com sua saúde. Eu hein?!

-Paul McCartney
 Oficialmente vegetariano o músico pede um cardápio personalizado toda a vez que sai em turnê. Isso não é nada! O local onde ele fica deve ter o número exato de 19 plantas de 1,8 m. de altura e 4 plantas com 1,2 m. Isso que eu chamo de amigo da natureza!

- Leonardo Di Caprio
-  Outro galã na lista das manias estranhas é Leonardo di Caprio. Desde a infância  o ator tinha a mania de não pisar em fendas. Com o tempo isso melhorou mas com a gravação do filme “O Aviador” Léo voltou a sofrer com a mania e chegava até mesmo a se atrasar para as filmagens porque tinha sempre de caminhar da mesma forma. Quando cometia algum deslize,ele refazia todos os passos. Acredita?!

Bem, o Michael Jackson nem precisa falar né? Todo mundo conhece as esquisitices dele, a foto também já diz tudo né?
Mas vamos registrar aqui, ainda mais nessa semana em que comemoramos o dia da consciência negra, que o cara não tinha vergonha de ser negro, como muitas pessoas diziam. Foi comprovado, depois de sua morte, que ele realmente tinha vitiligo e que era mais fácil branquear o pouco de sua pele que ainda não tinha sido afetada do que tentar voltar a cor original. 
   Acho que ele sofreu muito com esses e outros boatos que o seguiam depois da fama. Não estou aqui defendendo-o, e nem posso, pois não o conheço, mas creio que, nos casos de pedofilia, as pessoas queriam e se aproveitaram do dinheiro dele, já que as leis nos Estados Unidos são severas e realmente funcionam se os fatos forem comprovados. 
    Outro famoso que todos sabemos que tem suas esquisitices é o Roberto Carlos. Mas, depois de muitos anos com suas manias, acabou descobrindo que tem TOC. Hoje ele está se tratando e até brinca um pouco com suas esquisitices, o que é um bom sinal, pois, quando rimos de nós mesmos, quer dizer que já não damos tanta importância assim para as nossas imperfeições. 
    
    Bem, agora chega de falar das celebridades pois este é um blog sobre esquizofrenia e não um site de fofocas né? Sites sobre famosos é o que não falta por ai. Esses paparazzi não deixam escapar nada. A pessoa não pode nem ir a praia que vira notícia. Ela é fotografada à dezenas de metros de distância, com super câmeras que captam o menor detalhe. Só aquele negócio que colocam na lente das câmeras deve ter quase meio metro. E se a celebridade tiver celulite, ai então nem se fala. As lentes até captam os poros das gordurinhas acumuladas. Deve ser uma sensação bem estranha que uma pessoa famosa deve sentir quando vai à praia. Ela sabe que está sendo observada e fotografada, mas não sabe por quem e muito menos onde está o indivíduo. O alvo principal geralmente são as celulites, e não é à toa que muitas atrizes tem problemas em relação a alimentação, pois os fotógrafos são implacáveis. 
    Muitas vezes dou razão e acho até bom quando um artista dá uma apelada com esses paparazzis que passam do limite. Basta lembrarmos do caso da princesa Diana, que se foi deste mundo, tentando fugir de vários paparazzis que não a deixavam em paz. Imagino como deve ser a vida desses famosos internacionais, que nem podem sair de casa, pois o simples direito de ir e vir é violado, pois, basta saírem de suas casas que são praticamente parados por essas pessoas. 
     Bem, voltando ao assunto manias e esquisitices, eu também tenho as minhas. Já perdi a conta de quantas vezes me acharam esquisito ou diferente. E, sinceramente, levei isso como um elogio. 
    Uma mania que eu tinha e que sei que algumas pessoas têm é a de não pisar naqueles riscos das calçadas. Eu pisava só dentro dos quadrados, sempre tomava cuidado de não pisar nas marcas. Ainda bem que passou, era meio chato ter que ficar olhando para baixo. A sensação era de que estava em um jogo, que poderia cair se pisasse na marca. 
    Uma outra mania que tenho é a de ler os outdoors e cartazes que aparecem em minha frente, principalmente quando estou dentro de um ônibus. Fico bastante desconfortável dentro de um ônibus, ainda mais se estiver cheio. Para me desligar, além de ouvir música, fico lendo todos os cartazes que aparecem  pelo caminho. Isso tudo começou no meu primeiro surto, quando imaginava que as pessoas estavam "lendo" os meus pensamentos, principalmente quando olhavam para mim. Então, a arma que encontrei para que as pessoas parassem de saber o que eu estava pensando era ficar lendo os outdoors. Era uma sensação bem complicada essa, e bem estressante também, ainda bem que já passou e hoje só tenho alguns resquícios disso ai, que é um dos sintomas da esquizofrenia. 
    Agora, uma mania que sinto que não vai largar de mim tão cedo é a mania de perseguição. Já até falei sobre isso em dois posts, " A mania de perseguição que me persegue", 1 e 2. Claro que hoje isso está mais controlado, não saio por ai pelas br's desesperado como no primeiro surto, mas isso ainda me incomoda bastante. Ir ao supermercado, comprar uma roupa, coisas que antes eram agradáveis, hoje se tornou um pequeno martírio. Tenho sempre a sensação de que algum vizinho está olhando para o meu quarto. Ipatinga é uma cidade muito quente e tenho que deixar a janela e a porta abertas. Sempre acho que um alguém está olhando para o meu quarto, mesmo que o prédio ou casa esteja à duzentos metros de distância de mim. Já cheguei a descer para a rua, para conferir qual a visão que as pessoas têm do meu quarto quando estão passando pelo local. 
    Uma outra esquisitice que tenho é em relação as horas. O celular, o pc e a televisão devem estar marcando a mesma hora, se pudesse sincronizaria até os segundos. Também tenho uma mania com o pc em relação ao tempo. Muitas vezes chego até a cronometrar em quantos segundos o pc vai dar aquele som depois que o ligamos. Geralmente o meu dá o som em 38 segundos e quando passa disso fico preocupado com a saúde dele. 
   Agora uma mania que eu tenho e sei que muita gente tem é a de ficar mexendo na tampinha das pilhas do controle remoto. Quem nunca quebrou a tampinha e teve que passar uma fita isolante para quebrar um galho? É um mistério para mim isso, ficamos mexendo naquele troço sem a necessidade nenhuma, sabemos que é um plástico frágil, e mesmo assim ficamos mexendo até quebrar. Será que a psiquiatria já classificou essa mania?
      Bem, essa são uma das muitas manias e esquisitices que eu tenho. Acho que, se falasse todas, iria dar um outro livro. Mas isso não quer dizer que sou louco, faço parte da maioria nesse caso. Vem me falar que, você, que agora está lendo o post, não tem nenhuma mania? Nenhuma esquisitice, mesmo que pequenina? Pode falar sobre isso nos comentários, e se tiver com vergonha, pode postar como anônimo, ninguém vai ficar sabendo.
    Agora, se você respondeu que não tem nenhuma mania, então procure um psiquiatra urgente, pois você provavelmente não é uma pessoa normal.


    "A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal." 

(Raul Seixas)


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O "pan" nosso de cada dia


    São onze horas e quarenta e dois minutos da noite. Viro para a  direita, viro para a esquerda, fico de bruços, mas o sono não vem. Ai me lembro que esqueci de tomar o meu companheiro de todas as noites: o diazepan. Não adianta, a mente pode até esquecer, mas o corpo nunca esquece de nos dizer que está faltando algo para que possamos "relaxar" e assim tentar dormir e cair no sono, mesmo que este sono seja artificial e não nos ajude a recuperar as energias gastas em mais um dia de luta.
   Somente os jogos da seleção do Mano Menezes para me proporcionarem um sono profundo sem precisar de recorrer ao diazepan (ontem, 14/11/12,  conseguimos empatar com a "poderosíssima" seleção da Colômbia). O jogo foi tão ruim que apaguei antes mesmo de terminar o primeiro tempo...
    Me lembro como se fosse hoje a primeira vez em que pisei em um consultório de psiquiatria. Ainda estava morando nas ruas, devido à um surto psicótico que tive. Fui obrigado a fazer um enorme barraco na unidade de saúde do bairro Santo André, aqui em Belo Horizonte. O pessoal  não estava querendo me atender, pelo simples fato de que eu ainda não tinha  um endereço fixo. Disse então que o meu endereço a partir daquele momento seria a porta do posto de saúde, e que não sairia de lá enquanto não fosse atendido. Ai foi um reboliço danado, falaram que eu era doido, etc. Como é engraçado né? Quem usa os "serviços" do SUS deve entender o que eu estou falando: quando solicitamos algo aos funcionários com educação, somos mal atendidos e não nos dão atenção. Então, muitas pessoas dão um piti no local e são atendidos rapidamente. E ainda colocam aquele aviso na parede dizendo que desrespeitar funcionário público é crime. Mas também alguns funcionários nos dão a impressão que estão fazendo uma obrigação em nos atender, como se não fossemos nós que não pagássemos o salário deles. Digo alguns funcionários, pois existem pessoas atenciosas trabalhando no SUS, apesar de não terem condições mínimas de trabalho.



    Voltando então a minha minha primeira consulta com o psiquiatra. Já estava super bem, o surto havia passado há uns três meses. Estava super comunicativo e tendo um sono razoável, mesmo dormindo em um pedaço de papelão debaixo da marquise de um prédio. Não não estava mais enxergando inimigos por todos os lados, muito pelo contrário, estava me sentindo mais leve e bem disposto. Costumo dizer que a solidariedade das pessoas foi o meu melhor remédio naquela situação. 
    Mas ainda estava um pouco assustado com toda aquela piração pela qual passei. Muitas dúvidas ainda povoavam meus pensamentos. O que teria acontecido comigo? Seriam espíritos do mal que haviam se apossado de mim? Alguém teria colocado alguma droga em algo que havia bebido? Ou eu era realmente um louco? Aquilo tudo poderia voltar de uma hora para outra?
   Então, depois de muita insistência, consegui atendimento em posto de saúde no centro de Belo Horizonte. Estava muito ansioso para essa minha primeira consulta com o psiquiatra. Mas confesso que fui ficando desanimado ao constatar que as pessoas eram atendidas em menos de dez minutos. Me perguntei como seria possível resolver os problemas da mente de uma pessoa em tão pouco tempo. 
    Ao chegar a minha vez, entrei correndo para o consultório. A minha expectativa era de que o psiquiatra me receitasse um remédio milagroso que acabaria de uma vez por todas com os meus complexos e paranoias. Também queria um remédio que me faria dormir o sono dos justos. 
    O psiquiatra sequer me cumprimentou e também nem chegou a olhar para mim. Apenas perguntou o que eu tive. Fiquei um pouco desesperado, não sabia como contar em poucos minutos aquela loucura toda que havia acontecido comigo nos últimos meses. Sinceramente, não lembro do que disse, talvez tenha citado o tempo que permaneci no meio do mato. Só sei que, em menos de cinco minutos, após fazer algumas anotações, ele me passou um remédio chamado melleril. E, como eu tinha pedido algo para dormir, me receitou o lorazepan. 
    O que mais me deixou chateado nisso tudo, além do pouco tempo do atendimento, foi o descaso desse psiquiatra. Ele cometeu um equívoco, pois apenas perguntou o que havia acontecido comigo, e esqueceu de perguntar como eu estava me sentindo naquele momento. Como já disse, eu estava muito bem, comunicativo, tranquilo, em paz, já havia até recuperado o meu peso normal. Não tem como se fazer um diagnóstico e receitar um medicamento em cinco minutos. O que eu mais precisava naquele momento era de esclarecimento e talvez de um acompanhamento psicológico, para avaliar se eu correria ou não o risco de ter um novo surto. 
    Não tive nenhuma dessas coisas, e, como estava me sentindo bem, decidi que já era hora de voltar a trabalhar. Após algumas tentativas frustradas de trabalho em Belo Horizonte, resolvi voltar a trabalhar na mesma cidade onde desencadeei o meu primeiro surto. Não demorou muito e surtei novamente. Era como se fosse a repetição de um filme, pois fui muito caluniado naquele lugar. Sem contar as inimizades que tive por lá. O motivo dessas inimizades até hoje não descobri, pois, nunca tive problema parecido nas várias cidades por onde havia trabalhado. Voltei para as ruas novamente, só que dessa vez fui ajudado por pessoas que apareceram na hora certa e no lugar certo.
    Mas, voltando ao assunto diazepan, hoje não consigo ficar sem esse medicamento. Já cheguei a tomar dois por dia, quer dizer, a noite, antes de dormir. Já houve época em que não conseguia ir ao centro da cidade sem tomar um diazepan. Ficava desesperado só de constatar que a cartela do comprimido não estava no meu bolso. Hoje, com a situação mais ou menos estabilizada, consigo tomar apenas um na hora de dormir e pretendo ir diminuindo aos poucos até quem sabe um dia não ficar mais dependente dessa droga que prejudica um pouco a minha memória. 
    Já tentei parar de uma vez com o diazepan, mas estava ficando irritado facilmente e fiquei com receio que pudesse surtar novamente, pois a minha mania de perseguição começou a ficar bem acima dos níveis que costumo ter normalmente. 
    Por que os psiquiatras e médicos em geral não costumam alertar os seus pacientes sobre os riscos de dependência física e psicológica que esses ansiolíticos podem causar? Seria descaso? 
    Esses medicamentos apenas ajudam a conciliar o sono, não fazem milagres. Não irão fazer você esquecer seus problemas, não irão pagar suas contas e apagar da sua mente o que está tirando o seu sono. A não ser que você faça como o Michael Jackson fazia, tomando anestesia para dormir. Acho que os médicos também deveriam alertar que esses medicamentos com o tempo já não fazem o mesmo efeito, ou seja, a dose terá que ser aumentada com o decorrer dos anos.
o diazepan é apenas uma ajuda por um breve tempo... 

   Será que é tão difícil assim fazer essas duas pequenas recomendações? Demora tanto tempo assim? Alguns irão dizer: "Ah, mas isso está escrito na embalagem e na bula do remédio"... Até que está escrito, mas em qual tamanho? Por que nas embalagens do cigarro são colocadas aquelas fotos horríveis e na dos medicamentos não tem uma advertência mais visível? Será que é por que o cigarro está trazendo prejuízos ao governo devido as doenças causadas pelo tabaco? Já o diazepan não é tão caro assim, ou seja, traz prejuízos apenas a quem o usa. Sem contar que a maioria das pessoas que utilizam o SUS, não pegam a embalagem do produto e nem a bula, apenas as cartelas. E, mesmo se tivesse acesso a bula, muitos não entenderiam o que está escrito nela. Não estou aqui querendo dizer que o diazepan é um medicamento desnecessário, às vezes, em alguns casos de urgência, eles são muito úteis. Eu só quero dizer que seria muito útil os profissionais da saúde, antes de receitarem esse medicamento, fizessem essas advertências, pois grande parte das pessoas pensam que os "pans" são milagrosos, fazendo com que consigamos dormir o sono dos justos. 
    A minha memória dos fatos recentes já não está tão boa assim. O engraçado é que consigo lembrar de fatos antigos com detalhes. Percebi isso ao escrever o livro Mente Dividida. Pelo que pesquisei, um dos efeitos colaterais do diazepan é o esquecimento dos fatos recentes. Até que consigo dormir tomando o medicamento (quando os vizinhos deixam né?) mas a sensação de manhã é a de que não dormi quase nada, talvez pelo fato do diazepan não fazer com que cheguemos a fase do  sono rem, que é o sono reparador e que nos deixa mais dispostos e prontos para enfrentar um novo dia. 
     Existe um outro medicamento para dormir, que não é da família dos benzodiazepínicos, que se chama levozine. Esse faz até elefante dormir, mas o problema é que o efeito dele não cessa às sete horas da manhã, ficamos dopados até por volta do meio dia. Outro  problema acontece quando dá vontade de urinar no meio da noite. A sensação ao levantarmos é de que estamos bêbados, e o corredor fica estreito demais até chegarmos o banheiro. A solução seria o tradicional e velho pinico, que não gosto muito não. Tomei esse medicamento apenas por um dia, pois não posso ficar na cama até o meio dia né? 
    Então, ai vai o conselho: pensem duas vezes antes de começarem a tomar medicamentos para dormir. Isso pode ser para a vida inteira. Para mim vale o ditado: " Mais vale duas horas de sono natural do que duas com remédios". Tentem um chá de erva cidreira, um copo de leite morno antes de dormir, ouvir uma música suave, ver os jogos da seleção, etc. Tentem também resolver os problemas que estão lhe tirando o sono pois nenhum medicamento irá fazer isso por você. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Divagações esquizofrênicas 2

    Hoje(06/11) foi dia de pagamento. Até ai, nenhuma novidade, a não ser por uma grande diferença: não estava tão agitado como das vezes anteriores, em que chegava ao banco por volta das sete e meia da manhã, reclamava com quem tentava furar fila, enfim, uma ansiedade perturbadora. Mas, hoje, diferentemente dos meses anteriores,  cheguei ao banco por volta das nove horas da manhã, com uma certa tranquilidade. Saquei o dinheiro, fiz algumas compras, paguei as minhas contas e o aluguel, sem o costumeiro desespero de me livrar do dinheiro com receio de que fosse roubado ou então que perdesse o pagamento.
    Creio que isso talvez seja pelo fato de eu estar consumindo o ômega 3 há quase dois meses. Estou mais tranquilo e menos ansioso. Consequentemente diminui o consumo de chocolate, doces e massas. Nem eu mesmo acreditei que consegui encarar de frente a torta alemã da padaria, que estava novinha! Olhei para ela  com um certo ar de superioridade, como que dizendo:
- Ha ha! Não preciso mais de você!
Em relação as paranoias, senti uma pequena melhora também, mas não tão significativa. Já consigo sair de casa sem tantos pensamentos persecutórios (xi, baixou o psiquiatra). Continuo usando os fones de ouvido, mas por costume mesmo e por gostar de música, nem tanto para me desligar do mundo à minha volta. O desconforto de ficar em lugares fechados ainda persiste, principalmente no banco e supermercado. Quando o caixa eletrônico do banco informou que eu não poderia sacar o valor que eu digitei, fiquei meio desesperado e ai a capacidade de raciocinar foi embora. Perguntei ao atendente o que estava acontecendo e ele me disse que os caixas não estavam abastecidos com notas de dois reais. Respirei fundo para dar uma oxigenada no cérebro e saquei o dinheiro, deixando dois reais para o próximo mês. 
    Já em relação ao estado de ânimo, creio que não houve uma melhora não, sinto que vou ter que partir para os antidepressivos mesmo. Fica até difícil fazer uma análise, pois o meu estado de ânimo oscila muito de um dia para outro, o que já me fez pensar que eu fosse bipolar. Mas esta hipótese está descartada, pois, pelo que pesquisei, os bipolares ficam um bom período no estado de mania, para depois entrarem também um bom tempo na depressão. Meu humor oscila tanto de um dia para outro, que tenho até receio de marcar um compromisso, pelo simples fato de não saber como vou estar no dia seguinte. Do nada, vem uma vontade de viver e uma alegria tão intensa, que saio cantando por ai, para, no outro dia, estar na cama, como se tivesse acabado de perder um bilhete da mega sena premiado. 
    Falta agora saber se realmente o ômega 3 é eficaz para baixar os triglicerídeos, que, na última vez que fiz o exame, estava em 580mg, sendo que o a taxa limítrofe(agora baixou o médico) é de 200mg. Creio que todos sabem que o produto é bom para baixar o colesterol e os triglicerídeos no sangue. Sinto que tenha baixado sim, só falta saber o quanto, pois, como disse o início, como a ansiedade diminuiu, parei de comer as besteiradas e até emagreci um quilo. Assim que fizer o exame de sangue, postarei aqui o resultado para dividir com vocês se o produto realmente cumpre o que promete. Deve demorar um pouco, pois, como disse no post anterior, a saúde pública onde moro está na UTI.
    Para encerrar o assunto ômega 3, eu recomendo aos portadores de esquizofrenia que experimentem o  produto. Além de não ser caro, é um produto natural. É preciso um pouco de paciência e tempo, pois os resultados não são imediatos, creio que comecei mesmo a sentir uma melhora depois de uns trinta dias. Comprei o produto em uma farmácia de manipulação. Sessenta cápsulas de 1000mg custaram 32 reais, ou seja, o gasto por mês com esse produto é de 16 reais. Não custa muito tentar né? 
    Vale ressaltar aqui que não estou dizendo para que parem com a medicação. Não posso fazer isso e nem ficar receitando remédios. O ômega 3 é um produto natural e por isso estou compartilhando algo que me fez sentir bem. Não posso dizer que irá dar resultado em todos os casos, principalmente nos mais graves. 
    Nesse último final de semana, tive uma paranoia semelhante ao caso da mancha roxa(ela de novo) nos olhos. Estava com febre alta, dor de cabeça, meu coração acelerava só de subir um escada. Novamente os pensamentos de que pessoas estariam querendo me envenenar tomaram conta dos meus pensamentos. Tive que analisar tudo o que havia ingerido nos últimos dias e a lista de suspeitos ficou enorme. Fiquei triste, chorei, rezei, orei, conversei com Deus para que aquilo tudo tivesse um fim, se não seria melhor que eu não fosse embora deste mundo. Sonhei em ter muito dinheiro, pois queria mudar para um lugar bem distante, onde as pessoas não me conhecessem. É uma luta interior muito grande, analisar se as pessoas do seu dia a dia teriam ou não a coragem de lhe fazer algo de mal. Na cidade onde moro atualmente, só tenho que agradecer pelo simples fato de ser tratado como uma pessoa normal, passo pelas ruas e não ouço nenhum comentário a meu respeito, o que acontecia muita na cidade onde morava há uns dez anos atrás. Minha pequena melhora se deve e muito a esse fato, de ter me mudado para uma cidade maior onde as pessoas não ligam tanto para a vida dos outros. Mas é muito triste recusar um cafezinho por temer algo que está fora do meu alcance. Infelizmente isso não depende de mim, mas não conto isso para as pessoas, com receio de que não entendam e se sintam ofendidas. Mas ainda bem que esse mal estar durou apenas três dias e as desconfianças foram embora. 
    Por falar em mal estar, há cerca de uma semana  acabei  de passar por uma via crucis, que é a chamada cura do limão. Mas é um mal estar que no final é benéfico, como vocês podem pesquisar no link. É como se fosse um tratamento para desintoxicar o organismo, principalmente o sangue. Basicamente, o tratamento consiste em tomar, durante vinte dias, cerca de 110 limões. Sim, não é exagero não! E o pior, em jejum e puro, sem adicionar água. No primeiro dia, toma-se o suco de um limão, no segundo dia dois, e assim por diante, até chegar no décimo dia, quando se toma o suco de dez limões. A partir dai, faz-se  o inverso, regredindo para nove limões, oito, até chegar a um limão. É um processo desgastante, não estou indicando que façam isso, pois sente-se náuseas, tonturas e ânsia de vômito. Quem está trabalhando ou estudando por favor não façam isso, pois com certeza terão o seu rendimento prejudicado em suas atividades. Mas, depois de alguns dias do término do tratamento, sinto-me mais disposto e mais revigorado. No décimo dia, em que tenho que tomar o suco de dez limões em jejum, confesso que fico com muita tontura e com náuseas. Mas, se não nos lavamos por fora, por que não teremos que fazer uma limpeza interior? Infelizmente, devido aos alimentos industrializados que consumimos, as toxinas e impurezas ficam acumuladas no sangue e em nossos órgãos, e por isso faço essa desintoxicação uma vez por ano. 
    Encaro a cura do limão como um ritual também de purificação e de sobrevivência, um auto flagelo mesmo. Assim como a águia, que, por volta dos 40 anos, tem que se isolar e se auto flagelar para conseguir chegar aos 70 anos. Essa ave, no meio da vida, já fica sem condições de sobreviver em meio a natureza. Seu bico já está curvado, suas unhas já não estão fortes, suas penas já estão pesadas. Então, ela voa para o alto de uma montanha, quebra o seu bico, arranca suas unhas e suas penas para que tudo renasça com  a mesma força de antes. Esse processo demora cerca de 150 dias e ela já estava pronta para viver mais uns 30 anos. 

    Ontem(07/11) fui à cidade onde tive os meus surtos psicóticos e tive inúmeras inimizades. Confesso que vou lá, em primeiro lugar, para visitar as poucas pessoas que me entendiam e que não queriam o meu mal. Mas não vou negar que voltei a essa cidade simplesmente para mostrar as pessoas que ainda estou vivo, ao contrário do que elas haviam imaginado, não tenho aids e meus exames de saúde estão em dia. Aqueles dias de surto nessa cidade me deixaram marcas, que não consigo esquecer, pois tenho que conviver diariamente com todas essas paranoias que se iniciaram por lá. Como disse anteriormente não culpo a cidade por ter esquizofrenia, mas que várias pessoas que moravam lá ajudaram e muito a desencadear os surtos psicóticos, devido as inúmeras calúnias a meu respeito. Infelizmente eu prestava muita atenção ao que as pessoas falavam e pensavam de mim, e isso só me fez mal. Para entender esta historia toda, só lendo o livro mesmo, não tem como explicar tudo o que aconteceu em um único post. Mas, comparo tudo aquilo como uma guerra, só que bombardeio foi mental. Sai com vida, porém ferido e com cicatrizes que sinto que não sumirão de minha mente. 
    Quando estava andando pela cidade, pessoas que estavam sentadas em uma mesa do bar do outro lado da rua começaram a me ridicularizar. Para variar, estava ouvindo música, e, para entender o que estavam falando, diminui o volume do celular. O que deu para ouvir no final foi: " Olha lá o rei dos doidos!" E riram. Provavelmente, algumas pessoas daquela cidade já devem ter lido o blog ou visto os meus videos no youtube. Para completar o meu complexo messiânico, que já não o tenho mais, só faltaria colocar uma coroa de espinhos em minha cabeça e me crucificarem. Mas, como disse anteriormente, toda a experiência negativa tem um lado positivo, e as dificuldades que passei ao enfrentar a esquizofrenia sozinho me fizeram uma pessoa mais forte, e as palavras já não me ferem como antigamente. Então, aumentei o volume da música e continuei a seguir o meu caminho, sem ao menos olhar para essas pessoas que tentaram me ridicularizar. Para variar, eram pessoas que não tinham o que fazer, a não ser falar da vida alheia. Fazer o que né? 
-obs: pessoal, não deixem de votar na enquete. Agora parece que o problema foi regularizado e os votos não estão sendo zerados. Seria muito bom ter uma ideia da avaliação dos usuários sobre a saúde pública, se bem que o resultado já um pouco previsível né?

Galeria de arte 3

    Essa semana estou postando o trabalho do Rodrigo Quirino, que, assim como eu, tem esquizofrenia paranoide. Ele trabalha com desenhos criados no computador, a partir dos programas autocad e photoshop, e também com faz desenhos manuais, usando o guache e outros materiais.
    Aqui estão apenas algumas amostras do seu trabalho. Quem desejar conhecer mais o seu trabalho, é só visitar o seu perfil no orkut:
http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=9996494491080896433
    Ou então no facebook:
http://www.facebook.com/rodrigo.quirino.18

        


         



     


                O espaço estará sempre aberto à todas as pessoas que desejarem mostrar e divulgar o seu trabalho, mostrando que o transtorno mental não limita em nada a nossa forma de nos expressar, seja através da pintura, escrita, música ou qualquer outro meio que a arte está inserida.

                                                                                                                                                                               



       

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O atirador de São Paulo

   Ipatinga 39°C, céu com poucas nuvens e sem previsão de chuva. Umidade relativa do ar é de 28%. A sensação térmica é de aproximadamente uns 42°C. Hoje fui tomar banho e pensei que o chuveiro estava ligado na posição inverno, de tão quente que estava a água que fica nos canos.
   Nessas condições, minha pressão arterial cai pra 10x6 e fico meio borocoxô. Já medi a pressão várias vezes e a enfermeira na última vez disse que se eu comesse "pastel" nessas horas o problema seria resolvido. Haja pastel para acabar com essa bambeza provocada pelo calor.
    Já que a enfermeira disse que essa moleza é normal, vamos ao que interessa. Infelizmente o assunto de hoje é sério, fiquei muito triste com toda essa situação e confesso que ainda dá vontade de deixar de lutar para que acabe ou pelo menos diminua o preconceito e o estigma contra a esquizofrenia.
    Trata-se do caso do atirador de São Paulo. O administrador desempregado Fernando Gouveia, de 33 anos, feriu três pessoas com uma arma de fogo no momento em que seria interditado pela justiça, a pedido da família. Felizmente não aconteceu o pior e ele vai responder por tentativa de homicídio.
    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que não estou aqui para defender o Fernando, pois acho que ele tem condições de saber que, parando o tratamento como ele parou, poderia vir acontecer esse fato. Concordo que ele tenha que responder criminalmente pelo ocorrido, apesar de achar que a culpa nesse caso não seja totalmente dele.
    O que mais me estranha nisso tudo é a maneira como as coisas aconteceram e principalmente pelo fato de que ele estava morando com uma psicóloga de 45 anos, que deixou o rapaz ficar trancado em sua casa durante dois meses sem tomar os medicamentos.
   A minha intenção não é a de criticar a classe, mas sim a atitude, quer dizer, a omissão dessa pessoa no caso. Não entendo, como ela, sendo psicóloga, não levou o seu amigo (amante, ficante ou seja lá o que for) para fazer o tratamento, pois o mesmo dizia que estava chipado e que seria levado por estranhos seres com chifres. Aliás, nem precisava ser psicóloga para perceber que o cara não estava bem né?
    Fui muito criticado por alguns psicólogos em um grupo do facebook. Fui humilhado por um dos administradores, para falar a verdade. Disseram que eu deveria ir dormir, pois não era psicólogo e nem advogado para ficar dando opinião sobre o caso e que eu deveria me tratar. Acho que, qualquer cidadão comum tem o direito de expressar o que pensa, não precisa ser psicólogo ou advogado para perceber que ainda falta algumas coisas a serem esclarecidas neste caso. Afinal, estamos ou não em uma democracia? Se o que eu disse foi excluído no grupo(o administrador deixou só um pequeno trecho), eu posso relatar o que penso aqui no meu cantinho. Infelizmente na hora não pensei em tirar um print screen para que todos pudessem ver quem é  e como esse administrador do grupo trata as pessoas que pensam diferente dele.
    Mas, pelo que entendi do caso, Fernando abandonou o tratamento e resolveu sair de casa, sendo encontrado dois meses depois, morando com a psicóloga Silvia, de 45 anos, no bairro aclimação, em São Paulo. Seus familiares, percebendo que ele não estava bem, tomaram a decisão de interditá-lo. Acredito que a intenção da família tenha sido das melhores, pois Fernando não possuía bens e estava desempregado, o que elimina qualquer suspeita de que seus familiares quisessem tirar algum proveito financeiro com a interdição do administrador de empresas.
    O resto da história, creio que a maioria já sabe, pois a mídia adora uma tragédia dessas e expor os portadores de esquizofrenia, mesmo não estando em condições de dar uma entrevista. No momento em que seria interditado, Fernando efetuou disparos com uma arma e acabou ferindo o oficial de justiça, um enfermeiro e a sua amiga, esta provavelmente sem querer, pois foi ela quem abriu a porta para atender as pessoas que iriam levar o Fernando para um clínica para fazer o tratamento.
    A partir dai, foram nove horas de negociações até que o atirador se rendesse. Agora ele está preso e irá responder por tentativa tripla de homicídio, o que eu acho correto, pois ninguém pode sofrer as consequências por alguém ser portador de esquizofrenia, ainda mais com o agravante de que ele havia abandonado o tratamento( xi, parece que o advogado acabou de baixar em mim de novo). Bem, deixando a brincadeira de lado, gostaria de receber o mesmo tratamento se o fato estivesse ocorrido comigo, pois ninguém tem nada a haver como transtorno que carrego ao longo desses anos. Tenho consciência do que faço, menos quando estou surtado, mas no meu caso, nunca reagi com agressividade à todas aquelas alucinações e paranoias. Acho que as pessoas deviam saber que a maioria dos esquizofrênicos fazem mais mal a si mesmo do que aos outros.


Suicídio e Tentativas de Suicídio
Bleuler descreveu, na década de 1950, o comportamento suicida como "o mais grave de todos os sintomas esguizofrênicos". Aceitava-se, até aquele momento, que aproximadamente 10% dos pacientes com esquizofrenia morrem devido ao suicídio. Os dados epidemiológicos atualmente aceitos em relação ao suicídio de pacientes comesquizofrenia, citados por Bressan (in: Shirakawa, 1998) são os seguintes: 
a) de 2% a 13% de todos os pacientes cometem suicídio
b) esquizofrênicos têm um risco de 10% a 20% maior que a população geral para cometer suicídio;
c) o risco é maior em pacientes do sexo masculino
d) o risco é maior em pacientes jovens e diminui com a idade. 
Fonte: Psiqweb

    Mas a imprensa não gosta de divulgar suicídios, e acho isto até correto, pois isso pode incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo. Mas também é fato que eles adoram mostrar um esquizofrênico surtado, e até entrevistam o mesmo, sem ao menos saber se o portador está em condições de dar uma entrevista. Acho que a imprensa faria mais bem a sociedade tentando explicar para a população em geral o que é realmente a esquizofrenia. Acho que até a polícia deveria incluir em seus treinamentos uma forma de atuar nesses casos.
    Gostaria de deixar bem claro que pode ocorrer esses fatos graves e perigosos na esquizofrenia, mas isso acontece por que o portador deixa de tomar as medicações , ou não tem condições de ter um tratamento adequando. No meu caso, eu nem faço mais tratamento, pois a psiquiatra disse que estou estabilizado, mas a verdade é que estou mais na fase dos sintomas negativos. E também a verdade é que não há vagas e profissionais disponíveis para atender a população aqui onde moro. No posto de saúde onde sou atendido, a consulta dura em média dois minutos. Não é brincadeira, até gravei um vídeo em que cronometro os atendimentos. Quando o caso é mais grave, ai dura um pouco mais, geralmente quatro minutos. É só vocês verem no post O caso é grave doutor?, onde gravei quatro vídeos contando a atual situação da cidade onde moro e lá vocês verão um vídeo intitulado "Posto de saúde". Tenho sorte do meu caso não ouvir vozes de comando, em que o portador geralmente ouve vozes ordenando que ele faça coisas. A única pessoa que saiu prejudicada no meu caso, para minha sorte, foi simplesmente eu mesmo, por que não ouço essas vozes de comando, ouvia sim pessoas bolando planos para me matarem, e a minha única reação nessa história toda foi correr e fugir, pois não tinha como brigar e me defender de tantos inimigos imaginários. Também não entrei em desespero por que já estava cansado de toda aquela perseguição que estava imaginando, não estava com medo de que "eles" me matassem, para mim seria até um alívio, pois já estava sem forças naquele momento para continuar vivendo.
    Bem, voltando ao caso do atirador de São Paulo, creio que ele mereça pagar pelo crime que cometeu, mas não em um presídio comum, e sim em um lugar para que ele possa fazer o seu tratamento, para, quando sair, repense suas atitudes e chegue a conclusão de que, no caso dele, não tem como parar de uma forma abrupta o tratamento. Se ele for para uma penitenciária comum, creio que irá sair de lá muito pior do que entrou.
    Mas, o que mais me intriga nesta história toda é a participação, ou melhor dizendo, a omissão de sua "amiga" psicóloga, que o deixou chegar naquele estado. Foram dois meses em que ele permaneceu em sua casa, sem medicação e dizendo que estava chipado e nem saia de casa, com receio de que estranhos seres com chifres o pegassem.
   Afinal, por que essa amiga não o levou para fazer o tratamento? Se ele se recusava, por que ela não concordou com a interdição? Será que ela, como psicóloga, não percebeu que o Fernando estava surtado? Por que ela deixou que o rapaz chegasse naquela situação? Será que ela não sabia que ele tinha um pequeno arsenal de armas em sua própria casa?
Ai vem em minha cabeça uma outra pergunta, que me deixa mais assustado ainda: Será que essa psicóloga não precisa de um atendimento também? Ela não teria algum transtorno mental também? É até estranha essa pergunta, pois sempre imaginamos que os profissionais da área de saúde mental sejam pessoas bem resolvidas emocionalmente, estáveis, que não têm nenhum problema de ordem emocional ou psicológica. Afinal, são seres humanos como nós e estão sujeitos a esses tipos de problemas.
   A amiga do Fernando foi atingida no ombro e provavelmente já deve ter tido alta do hospital. Não entendo como ela até hoje não deu uma declaração sobre o assunto. Se falou alguma coisa, não foi divulgado. Acho que ela tem muito o que esclarecer , muitas questões nesta história só ela tem a resposta. Se o atirador tem que responder por tentativa de homicídio, ela, no mínimo, tem que responder por omissão, negligência, ou participação no caso(sai de mim advogado, que este corpo não te pertence! rsrsrs). Afinal, ela, como psicóloga, sabia que poderia acontecer aquilo, sem contar que ela provavelmente sabia que o mesmo possuía várias armas em sua casa, apesar de estarem devidamente registradas e legalizadas. Um policial comentou que ficou surpreso pelo fato de um esquizofrênico ter conseguido o porte daquelas armas. Acho que ele deveria se informar mais sobre a esquizofrenia, pois, quando estamos devidamente medicados, podemos ter uma vida normal e não somos extraterrestres. Não está escrito em nossas testas que somos esquizofrênicos.
   Nessa história ainda tem o fato do psiquiatra da família do Fernando ter diagnosticado o mesmo sem ao menos vê-lo, com base apenas no relato da família, para que assim ocorresse o processo de interdição do administrador de empresas. Já pensou se a moda pega? Se uma família, com a intenção de se apropriar dos bens de um parente, vai ao psiquiatra e começa a dizer que esse parente está ficando maluco o psiquiatra dá o laudo? Ai até uma pessoa "dita normal" reagiria de uma maneira não amistosa numa situação dessas. Já ouvi relatos de casos desse tipo, em que a pessoa não tem nenhum problema mental, mas a família, interessada nos bens da pessoa, faz esse procedimento para interditar a pessoa.
    Bem, espero que os profissionais da área da saúde mental não fiquem zangados comigo por causa deste post. Não estou aqui criticando a classe de uma maneira geral e sim o comportamento em especial da Silvia. Gostaria que ela se pronunciasse a respeito do caso, pois o pior poderia ter acontecido, e ela sabia que isso poderia ter ocorrido. Infelizmente existem maus profissionais em todas as áreas, e na psicologia e psiquiatria não poderia ser diferente. Sou grato a quase todos os psiquiatras e psicólogas que me atenderam nos momentos mais difíceis, e devo parte de minha quase recuperação a esses profissionais, mas não poderia deixar aqui de falar o que penso sobre essa assunto, pois, a cada dia que passa só aumenta o preconceito e o estigma que esse transtorno carrega.
    Esses dois comentários abaixo eu retirei de um site que deu a notícia do caso e reflete o que a maioria das pessoas pensam a respeito dos portadores de esquizofrenia.