quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sons: do inferno ao paraíso

    Ontem estava tranquilamente no posto de saúde, tentando conversar com a assistente social, para conseguir uma pomada não muito barata para tirar a mancha roxa que teima em não sair da região dos meus olhos. Acho que essa mancha apareceu por que passei o prestobarba nas pálpebras na hora de fazer a barba, pois tenho alguns pelos nessa região. shasuahsuashas A região que já é sensível, ficou ainda mais irritadiça quando fui usar a água sanitária.... 
    Estava tudo calmo e tranquilo no posto, até dava para ouvir o cantar dos pássaros no telhado. Pardal canta, ou pia? Então, aos poucos mais pessoas foram chegando e logo o posto ficou praticamente lotado. O burburinho das pessoas conversando ia aumentando gradativamente. Uma mulher sentou-se ao meu lado esquerdo e imediatamente começou a conversar com a que estava do meu lado direito, como se eu não existisse. Eu, no meio, já estava ficando irritado ao ficar no meio daquela conversa, e o assunto era o mais discutido em um posto de saúde: doença. Será por que as pessoas não encontram outro assunto para se falar em um posto de saúde sem ser doença? Não estava me sentindo nada confortável com aquela situação e, tentando mostrar educação e cordialidade, pedi  para que as duas se sentassem uma ao lado da outra, antes que eu ficasse doente de tanto ouvir falar em moléstias... 
    Coloquei o meu fone de ouvido, não com intenção de escutar música, pois a assistente social poderia me chamar a qualquer momento. Era mais uma tentativa de proteger o meu ouvido e a minha mente de toda aquela confusão. O burburinho rapidamente tinha se transformado em uma torre de babel. A acústica do local ajuda na multiplicação das vozes e a sensação era de que havia milhares de pessoas conversando ao mesmo tempo em línguas diferentes. Pensei em ir embora, mas desisti da ideia, queria resolver a "rouxidão" dos olhos  mais dia menos dia, pois estou parecendo um urso panda com insônia. 
    Olhei para a direita, e não havia mais do que trinta pessoas conversando, a maioria mulheres, à espera da consulta com o médico. Na recepção, apenas a secretária e mais duas atendentes. Na esquerda, cerca de dez pessoas esperavam sentadas o atendimento. Cheguei a  observar os lábios de quase todas as pessoas que estavam no posto, para ver o movimento da fala, e pude perceber que a maioria estava calada. Cheguei a me perguntar de onde vinham tantas vozes, se estava enlouquecendo. Fui ficando um pouco irritado e, para o meu desespero, o sistema estava fora do ar. Para desabafar, disse, em tom de brincadeira:
    - Tem um tempão que "tô" tentando resolver essa mancha no meu rosto e não consigo. Se demorar muito e eu ficar com essa mancha roxa para sempre, o prefeito também vai ficar com umas manchinhas no olho também. A diferença é que ele vai saber o motivo das manchas, e eu, até hoje não sei. 
    As pessoas que estavam na fila riram. Aquilo também funcionou como um desabafo, uma forma de protesto contra o atual prefeito da cidade onde moro, pois o atendimento na área da saúde piorou de uma forma drástica, sem contar outros serviços que foram fechados. A associação que frequento para portadores de transtornos mentais está prestes a ser despejada, pois a prefeitura não disponibiliza o auxílio mensal a um bom tempo e o aluguel está atrasado. 
    A cada minuto que se passava ficava cada vez mais confuso e cheguei a me perguntar se aquilo era uma alucinação auditiva. Pensei em tomar um diazepan, mas logo a irritação deu lugar a uma tonteira e um cansaço mental, os músculos de minha face e testa estavam tensos e rígidos. Resolvi dar uma saída, para dar uma respirada e ouvir um pouco o som do silêncio, aproveitando que o sistema ainda estava fora do ar. 
    Até então estava bem disposto naquele dia, mas o cansaço mental provocado por aquela situação me deixou um pouco sem energia. Com o cérebro mais oxigenado, percebi que não foi uma alucinação. Como já disse, a acústica do local reverbera um pouco as vozes e as multiplicam, causando toda aquela confusão. Ou então é o pessoal que frequenta o posto de saúde que gosta de prosear mesmo. 
    Não sei se é por causa da idade ou do transtorno, mas estou mais sensível aos sons. A sensação é de que, ao invés de perder a audição com o tempo, estou ouvindo cada vez melhor, como se fosse um cachorro. Os sons agudos, em especial, me irritam profundamente. Sempre quando me irrito com algum som, observo a reação das pessoas ao meu redor para notar se elas também tiveram a mesma reação. E geralmente elas estão com um semblante sereno, sinal de o som não está tão irritante assim. Lembro-me que, na época em que trabalhava como operador de som, quase nunca colocava microfone nos pratos da bateria, simplesmente por detestar o som que eles produziam. 

      Mas, da mesma maneira que me deixam irritado, os sons possuem  a capacidade de me fazer relaxar profundamente e sonhar acordado também. A música consegue fazer coisas maravilhosas, alterando o estado de ânimo das pessoas. Algumas pessoas chegam a usar a música para fazer em suas caminhadas, sentindo-se impulsionadas a correrem, de acordo com o ritmo do som que estão ouvido. No meu caso particular prefiro o rock pesado, o som visceral das guitarras elétricos me deixa um pouco "energizado". 
    Algumas músicas, dependendo do meu estado de espírito, me fazem sonhar acordado. É só fechar os olhos, me deitar e deixar que meus pensamentos façam o resto. Afinal, sonhar não custa nada, e o sonho pode ser tão real. Como diz a música da escola de samba Mocidade Independente:

"Deixe sua mente vagar

não custa nada sonhar

viajar nos braços do infinito

onde tudo é mais bonito

nesse mundo de ilusão."
    Não gosto muito de samba, mas essa música é daquelas que ficam gravadas na cabeça da gente.

       Já outras músicas me ajudam muito na questão da esquizofrenia. São as músicas tranquilas, calmas, que tem o dom de nos relaxar. Particularmente ouço muito Yanni, música clássica, piano, etc.
    Já as músicas românticas me fazem pensar em mulheres Sonho com uma mulher que costumo idealizar, mesmo sabendo que ela não existe e que nunca vai aparecer em minha vida. Eu sei que isso é coisa de mulher mesmo, mas os homens também pensam nisso, mas gostamos de dar uma de durões mesmo e não falamos nada a respeito. Sou apaixonado por essa mulher que não conheço e que sei que não vou conhecer, simplesmente por que ela não existe. Já quebrei a cara algumas vezes por projetá-la em algumas mulheres. Sonho com mulheres, mas não são sonhos eróticos. Na maioria das vezes, estamos em meio a natureza, na praia, ou em algum outro lugar além do horizonte, sempre sorrindo e rindo de tudo. (hoje tô romântico!)
     Quando estou meio cansado deste mundo ouço outros sons, e geralmente viajo para mundos bem melhores do que esse que estamos vivendo. Um mundo sem violência, sem inveja, sem neuroses, paranoias... 
    Voltando ao assunto, não posso dizer com certeza se isso é um sintoma ou característica da esquizofrenia, mas, após os surtos, cheguei a conclusão de que os sons tiveram uma dimensão maior em minha vida, tanto para o lado positivo(música, sons da natureza), como para o lado negativo(sons irritantes).
    Gostaria de saber se quem tem esquizofrenia também tem essa aversão à sons irritantes e agudos. Não achei nada sobre esse assunto em minhas pesquisas. Claro que isso pode ocorrer com qualquer pessoa, ainda mais se forem de uma certa idade, mas sinto que as coisas para mim pioraram nesse sentido depois dos surtos.
    Vocês, portadores, tem problemas em relação aos sons?
    E, vocês, profissionais da área de saúde mental, notaram se os pacientes se queixam muito sobre os sons?


    
    
    

7 comentários:

  1. Eu sou esquizofr~enica e o meu ouvido também é ótimo! Tinha problemas com sons no sentido de me sentir extremamente agitada, ansiosa e com insônia no tempo que vivia no RJ. Hoje, morando numa cidade interiorana, onde não há barulho algum, somente o silêncio, me sinto bem mais tranquila, equilibrada e com ótima qualidade de sono. Também faço uso de diazepan e acredito que de fato, o som extremo mexe com nosso sitema nervoso por experiência própria. Espero ter respondido a sua questão e abraços!

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  2. Eu também preciso do silêncio, fico notando a expressão das outras pessoas quando ocorre uma situação de stress em que os sons são os causadores, e reparo que as outras pessoas não estão sofrendo tanto assim com os sons como eu, ai cheguei a essa conclusão. É claro que o som alto irrita qualquer pessoa, mas no meu caso é mais contundente ainda esse problema.
    Abraços e felicidades pra vc.

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  3. Olá! Sou estudante de medicina e achei interessante sua dúvida. Pesquisarei em neurofisiologia auditiva para ver se tem alguma relação com a Dopamina. Em breve respondo aqui :)
    Quanto ao fato de você ter dúvidas se a sensação auditiva era alucinação ou não, tenho uma pergunta: quando você está em surto com alucinação auditiva quantas vozes diferentes você ouve? Elas falam ao mesmo tempo? Você sempre entende o que falam? Num ambiente muito barulhento como sala de espera, restaurante e shopping o barulho é bem intenso, mas raramente dá para entender o que as pessoas estão falando, a não ser que se preste atenção e a pessoa esteja próxima.
    Em patologias como o autismo, por exemplo, a pessoa tem hipersensibilidade auditiva, ouvindo tudo com clareza ao mesmo tempo, não sabendo o que priorizar..
    Abraços

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  4. Algum tempo atrás eu vi uma reportagem na tv sobre exames no cérebro de uma pessoa ensurtada e o mesmo indicou que a região do cérebro de uma pessoa em surto fica mais ativa do que o normal. Agora, acontece que eu não estou ensurtado e os sons me irritam profundamente, só consigo ouvir música em volume bem baixo mesmo. Relembrando aqui um pouco os meus surtos, foram várias vozes que falavam em minha mente, mas acho que nunca ao mesmo tempo. As vozes sempre foram bem nítidas, na maioria das vezes estavam me criticando ou então combinando para me matarem. Outras vezes me diziam coisas sem sentido, que fica até difícil de explicar aqui, nem pensando muito consegui colocar no papel isso, até deixei de colocar algumas coisas no livro por serem tão estranhas e dificeis de narrar. Com relação ao zum zum zum em locais movimentados, realmente fica uma confusão danada, parecendo que milhares de pessoas estão falando ao mesmo tempo, mas eu procuro ver a reação das pessoas ao meu lado, e não noto que elas estão incomodadas com tanto barulho, ai cheguei a conclusão que o problema está comigo mesmo. Quando estou em um local muito movimentado e a acustica não ajuda muito, a sensação é que milhares de pessoas estão falando ao mesmo tempo, chega até a olhar o movimento dos lábios das pessoas para ver se existem tantas pessoas falando mesmo.

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  5. Estou chorando ao ler seu relato..


    Tenho um filho maravilhoso...mas ele está com essa doença não sei como ajula lo, queria saber mais sobre essa doença cmas nesse momento estou chorando de tristeza ,me mande um email por favor.... Navafatima@gmail. Com....muito obrigada. Fatti

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    1. Olá, à princípio não queria postar o seu comentário, já que ia lhe responder por email. Até iria lhe enviar um livro que talvez poderia lhe ajudar a entender melhor a esquizofrenia mas infelizmente me parece que você digitou o seu endereço de email incorretamente. Coloquei o final .com com o c minúsculo, mas mesmo assim dava erro. Se quiser o livro, dê uma conferida em seu endereço de email para ver se você não digitou errado.
      Obrigado pela visita ao blog.

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  6. Olá! Emocionante os seus relatos, e parabéns pela força em que enfrentou os seus problemas.
    Estou com um irmão diagnosticado com esquizofrenia. Mas ele sempre negou fazer tratamento, e acreditamos que essa escrizofenia desencadeou por uso de drogas, como maconha e cocaina. Ele estava há 6 meses morando em Manaus fazendo mestrado em Ciências da computação. (minha família é de Salvador). Na terça feira (21/06) ele teve um surto em Manaus e por sorte tinha um amigo dele lá que o levou a um hospital psiquiátrico. Meu pai foi às pressas para buscá-lo em Manaus. Agora ele está em casa e vamos levá-lo ao psiquiatra, meu irmão nos pediu para iniciar o tratamento.
    Queria muito saber como devemos agir com ele, o que podemos falar? Como devemos tratá-lo? Por favor, nos ajuda. Estamos perdidos. 😢 Caso queira, pode responder por e-mail: terezagaspari@hotmail.com

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